{"id":5659779,"date":"2026-04-07T20:25:17","date_gmt":"2026-04-07T23:25:17","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659779"},"modified":"2026-04-08T08:47:28","modified_gmt":"2026-04-08T11:47:28","slug":"eu-ate-sonhei-com-voce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/eu-ate-sonhei-com-voce\/","title":{"rendered":"Eu at\u00e9 sonhei com voc\u00ea"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659779?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659779?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio A crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e<\/em><\/h6>\n<p>Primeiro dia de aula, a diretora de uma escola no Rio de Janeiro est\u00e1 no port\u00e3o para receber as crian\u00e7as. Ela brinca, como faz todos os dias: \u201cpara passar \u00e9 preciso pagar o ped\u00e1gio com um abra\u00e7o!\u201d Na fila de entrada est\u00e1 Bia. Ela sorri e lhe d\u00e1 um longo abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao longo da semana, Bia desce in\u00fameras vezes ao andar onde fica a sala da diretora. Bebe \u00e1gua, usa o banheiro, embora pudesse faz\u00ea-los no andar que fica sua sala de aula. E a cada vez que desce, passa pela diretora e se aproxima para um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Fim de semana chega e, na segunda-feira seguinte, a diretora n\u00e3o consegue estar no port\u00e3o para a entrada dos alunos. Algum tempo depois, Bia aparece em sua sala, coloca as m\u00e3ozinhas na cintura e, em tom s\u00e9rio, a repreende: <em>Eu n\u00e3o te vi hoje!<\/em> A diretora responde que n\u00e3o foi poss\u00edvel estar na entrada e pergunta sobre seu fim de semana. Bia a surpreende, j\u00e1 dentro de um abra\u00e7o, quando lhe responde: <em>Eu senti muita saudade, tanta saudade que eu at\u00e9 sonhei com voc\u00ea, tia Paula, sabia?<\/em><\/p>\n<p>O que Bia dirige para a diretora quando conta que teve um sonho com ela? A delicadeza do relato deste sonho traz um impasse para a diretora: o que dizer \u00e0 menina, seria poss\u00edvel intervir?<\/p>\n<p>Este impasse \u00e9 um disparador para duas conversa\u00e7\u00f5es do laborat\u00f3rio \u201cA crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e\u201d. Na primeira estavam as participantes do laborat\u00f3rio e a segunda aconteceu no encontro de mar\u00e7o do Cien-Rio. Ambas partem da seguinte quest\u00e3o: que uso se pode fazer de sonhos de crian\u00e7as numa escola?<\/p>\n<p><strong>A crian\u00e7a e seu sonho <\/strong><\/p>\n<p>Aos 7 anos, Bia cursa o 2\u00b0ano do Ensino Fundamental. Apesar de ser uma aluna nova, ela circula na escola com desenvoltura. Inteligente, educada e muito simp\u00e1tica, \u00e9 de poucas palavras. Sua irm\u00e3 de 4 anos, curiosa, falante e sorridente, parece uma pintura, \u201cuma princesa sa\u00edda do livro Omo-oba das princesas africanas\u201d, descreve sua professora. Pelo menos por ora, \u00e9 Bia que exp\u00f5e algo de seu sintoma na escola.<\/p>\n<p>Roy (2023) sublinha dois caminhos para o trabalho do sonho: \u201co do desejo, por meio do qual a realidade se constr\u00f3i; e aquele que cava o buraco por onde toda realidade escapa em dire\u00e7\u00e3o a um imposs\u00edvel de representar\u201d. Entre a tentativa de realizar o desejo dos pais e o temor de apresentar algo que se contraponha a seus ideais, est\u00e1 a crian\u00e7a e sua ang\u00fastia.<\/p>\n<p>A primeira conversa\u00e7\u00e3o foi realizada com a diretora e as outras participantes do laborat\u00f3rio e girou em torno da produ\u00e7\u00e3o do sonho que foi dirigido para ela.\u00a0 Ao final, concluem que n\u00e3o se trata de fazer uma \u201cpsicoterapia escolar\u201d, mas de dar lugar \u00e0 palavra da crian\u00e7a com os significantes que ela traz e articula na constru\u00e7\u00e3o de seu saber sobre o que se passa com ela. Isso leva ao desdobramento quanto ao contexto dos pais, tema da segunda conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O del\u00edrio familiar<\/strong><\/p>\n<p>Durante a segunda conversa\u00e7\u00e3o, a diretora lembra de um dado importante: ap\u00f3s o aceite da matr\u00edcula de Bia e da irm\u00e3, soube que era a terceira escola, em tr\u00eas anos, em que as duas meninas estavam estudando. Os pais eram \u201cinadimplentes profissionais\u201d, o que confirmaram ao final do ano letivo, quando, mais uma vez, mudaram as filhas de escola, deixando para tr\u00e1s o d\u00e9bito de todas as mensalidades escolares daquele ano. Somente as matr\u00edculas foram pagas.<\/p>\n<p>Assim, aos 7 anos, Bia cursa o 2\u00b0ano do Ensino Fundamental I e j\u00e1 fez e desfez la\u00e7os pelas escolas em que estudou, em t\u00e3o pouco tempo.<\/p>\n<p>\u201cDe dentro, eu escutava, via e acolhia. E o fato recortado era a car\u00eancia afetiva de uma menina sens\u00edvel e inteligente que a cada ano precisava romper todos os la\u00e7os constru\u00eddos, como se estivesse deixando para tr\u00e1s um l\u00e1pis e um caderno.\u201d \u2013 traz a diretora, apontando os limites da atua\u00e7\u00e3o dos profissionais nas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Algumas participantes desta conversa\u00e7\u00e3o com o Cien-Rio se surpreendem com a posi\u00e7\u00e3o \u201cperversa\u201d dos pais (legitimada pelo Estado) que justamente impede que as filhas fa\u00e7am la\u00e7os importantes para a vida escolar e para a forma\u00e7\u00e3o enquanto sujeitos.<\/p>\n<p>Na escola, \u201ccomo proteger as crian\u00e7as do del\u00edrio familiar?\u201d Foi sugerida uma interlocu\u00e7\u00e3o com o conselho tutelar, afim de problematizar essa quest\u00e3o e certos \u201cequ\u00edvocos\u201d do Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente.\u00a0 As resolu\u00e7\u00f5es normativas e super protetoras sobre a inf\u00e2ncia, na perspectiva do sujeito de direito, muitas vezes desconsideram a crian\u00e7a como um sujeito que possui o seu pr\u00f3prio saber. E ao faz\u00ea-lo, produzem um discurso sem furos, que a silencia e aliena.<\/p>\n<p>Uma segunda quest\u00e3o surge na conversa\u00e7\u00e3o: o uso t\u00f3xico dos celulares e a rea\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e adolescentes diante da proibi\u00e7\u00e3o nas escolas. Acolh\u00ea-los na escola, educ\u00e1-los, exige hoje encontrar um uso sob medida para os <em>gadgets<\/em> que a civiliza\u00e7\u00e3o oferece para eles.<\/p>\n<p>Seguir Lacan com a ideia de que \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d \u00e9 dar lugar a cada um \u2013 seja a crian\u00e7a com seu sonho, ou a diretora \u2013 com sua inven\u00e7\u00e3o. \u00c9 tomar a \u201ccar\u00eancia afetiva\u201d como um dizer e n\u00e3o uma classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso inventar, a cada vez, como encontrar o acesso do sujeito a que nos dirigimos. Isso implica uma dist\u00e2ncia das classifica\u00e7\u00f5es, o que implica uma despatologiza\u00e7\u00e3o\u201d. (Laurent, 2023, p.23)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Laurent, \u00c9. \u201cA an\u00e1lise de crian\u00e7a e a paix\u00e3o familiar\u201d. <em>Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2011.<\/h6>\n<h6>Laurent, \u00c9. \u201cEntrevista com \u00c9rica Laurent\u201d, por Silvia Tendlarz. <em>Conversa com o inconsciente das crian\u00e7as e seus objetos<\/em>. Ana Martha Wilson Maia (ed.). Goi\u00e2nia: Kelps. 2023.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Laborat\u00f3rio A crian\u00e7a entre a mulher e a m\u00e3e Primeiro dia de aula, a diretora de uma escola no Rio de Janeiro est\u00e1 no port\u00e3o para receber as crian\u00e7as. Ela brinca, como faz todos os dias: \u201cpara passar \u00e9 preciso pagar o ped\u00e1gio com um abra\u00e7o!\u201d Na fila de entrada est\u00e1 Bia. 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