{"id":5659781,"date":"2026-04-07T20:33:19","date_gmt":"2026-04-07T23:33:19","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659781"},"modified":"2026-04-08T08:48:42","modified_gmt":"2026-04-08T11:48:42","slug":"therians-identidade-corpo-e-pertencimento-nas-redes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/therians-identidade-corpo-e-pertencimento-nas-redes-sociais\/","title":{"rendered":"Therians: Identidade, corpo e pertencimento nas redes sociais"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659781?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659781?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Laborat\u00f3rio Ser, parecer, sonhar nas redes sociais<\/em><\/h6>\n<p>O laborat\u00f3rio \u201cSer, parecer, sonhar nas redes sociais\u201d promoveu encontros com adolescentes de 12 a 16 anos, mobilizados pela inquieta\u00e7\u00e3o diante do fen\u00f4meno dos <em>Therians<\/em> \u2013 uma express\u00e3o identit\u00e1ria emergente entre jovens, especialmente nas plataformas digitais. A experi\u00eancia culminou em uma apresenta\u00e7\u00e3o na noite do CIEN Minas, em que se discutiu, de modo transversal e interdisciplinar, a centralidade do significante \u201clugar\u201d como eixo de pertencimento, legitima\u00e7\u00e3o e exist\u00eancia simb\u00f3lica.Segundo a defini\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel na Wikip\u00e9dia, \u201c<em>therian<\/em>s s\u00e3o indiv\u00edduos que acreditam ou sentem ser animais n\u00e3o-humanos de forma espiritual, psicol\u00f3gica ou neurobiol\u00f3gica\u201d, articulando essa viv\u00eancia por meio da no\u00e7\u00e3o de \u201cdisforia de esp\u00e9cie\u201d. Nos encontros, os adolescentes compartilharam percep\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias: definem-se como sujeitos que \u201cn\u00e3o se reconhecem como humanos\u201d e afirmam sentir \u201cuma for\u00e7a do bicho dentro de mim que quer se manifestar\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo das conversa\u00e7\u00f5es, refletiram sobre como constroem e performam suas identidades nas redes. Tais espa\u00e7os se tornam verdadeiros l\u00f3cus de reconhecimento e comunidade, em que se compartilham narrativas, pr\u00e1ticas e afetos. Sites, perfis, blogs e p\u00e1ginas funcionam como dispositivos pedag\u00f3gicos e normativos, nos quais se define, orienta e valida o que \u00e9 ser <em>therian<\/em>. No entanto, nesses ambientes, a express\u00e3o da identidade <em>therian<\/em> tamb\u00e9m encontra resist\u00eancia, como relatou um jovem: \u201ctem os <em>haters<\/em>, mas s\u00f3 de saber que tem gente como eu j\u00e1 d\u00e1 conforto\u201d. As manifesta\u00e7\u00f5es relatadas englobam desde sensa\u00e7\u00f5es corporais sutis at\u00e9 performances deliberadas, como o quadrobismo \u2013 imita\u00e7\u00e3o dos movimentos e gestualidades de determinada esp\u00e9cie animal com a qual se identificam. No <em>TikTok<\/em>, esses adolescentes compartilham v\u00eddeos em que utilizam m\u00e1scaras, caudas e luvas, compondo uma autoimagem que \u00e9, ao mesmo tempo, \u00edntima e comunit\u00e1ria. Um deles afirmou: \u201cme sinto confuso porque n\u00e3o consigo medir o corpo\u201d, sinalizando um desalinho entre percep\u00e7\u00e3o corporal e espa\u00e7o f\u00edsico. Outra jovem aproximou sua experi\u00eancia \u00e0 \u201cdisforia de g\u00eanero\u201d, sugerindo zonas de sobreposi\u00e7\u00e3o entre diferentes modalidades de deslocamento identit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os momentos mais intensos dessa experi\u00eancia relatados s\u00e3o chamados de <em>shifts<\/em>, ocasi\u00f5es em que a sensa\u00e7\u00e3o de animalidade se imp\u00f5e ao ponto de reorganizar o corpo e sua a\u00e7\u00e3o: \u201cfrequentemente me pego caminhando nas pontas dos p\u00e9s, mesmo na escola\u201d, ou ainda, \u201csinto a puxada do corpo e vontade de co\u00e7ar as orelhas\u201d. Em outro momento, ouve-se: \u201csim, e me d\u00e1 vontade de rosnar dependendo\u201d. Esses relatos apontam para uma viv\u00eancia subjetiva que desafia binarismos estabelecidos entre o humano e o n\u00e3o humano.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise \u00e9 aqui convocada a reconsiderar os modos de subjetiva\u00e7\u00e3o que se operam a partir das redes. As falas revelam uma puls\u00e3o de pertencimento e de reconhecimento: \u201cme sinto menos louco\u201d; \u201centendi que tem mais gente como eu\u201d. Sigmund Freud, ao tratar das forma\u00e7\u00f5es da identidade em <em>Psicologia das massas<\/em>, e Jacques Lacan, ao articular a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito via linguagem, oferecem importantes referenciais. Jean-Claude Milner e Jacques-Alain Miller atualizam esse debate, indicando que, na aus\u00eancia de um significante-mestre, os sujeitos passam a investir em s\u00e9ries de significantes m\u00faltiplos para sustentar sua exist\u00eancia simb\u00f3lica. \u201cEu sou o que eu digo\u201d passa a ser uma nova f\u00f3rmula de consist\u00eancia subjetiva. No horizonte da adolesc\u00eancia, essa l\u00f3gica se acentua. Philippe Lacad\u00e9e observa que se trata de um tempo l\u00f3gico, pr\u00f3prio de cada sujeito, marcado por uma \u201ccrise da linguagem\u201d e por uma reformula\u00e7\u00e3o da imagem corporal frente ao desejo do Outro. A entrada em cena de objetos como o olhar e a voz, assim como o confronto com o corpo do Outro, torna essa travessia arriscada e \u00fanica.<\/p>\n<p>Quando abordados sobre os sonhos, os adolescentes distinguiram dois registros. O primeiro, o sonho como desejo: \u201cque meu pai me entenda\u201d; \u201cuma escola para <em>therian<\/em>s\u201d. O segundo, o sonho on\u00edrico, com forte carga simb\u00f3lica: \u201c\u201cquando vi, toda a alcateia na minha frente me olhando e eu era um lobo ali na frente deles&#8230; todos eles me olhavam e eu me juntei ao grupo, subimos juntos\u201d; \u201clembro do sonho quando comecei a entender meu therien, senti sede e no sonho fui beber \u00e1gua na vasilha do meu cachorro\u201d. Tais sonhos s\u00e3o narrados como experi\u00eancias reveladoras de conex\u00e3o com sua <em>theriotype<\/em>, consolidando a dimens\u00e3o sensorial e simb\u00f3lica da identidade n\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A busca por um \u201clugar\u201d \u2013 palavra que atravessa toda a conversa\u00e7\u00e3o \u2013 reverberou nas conversa\u00e7\u00f5es. Uma jovem <em>therian<\/em>-loba narra, em seu blog, uma trajet\u00f3ria marcada por dor e patologiza\u00e7\u00e3o, transformada pelo encontro com a comunidade online: \u201centendi que existiam outras pessoas como eu. Me libertei.\u201d Essa liberta\u00e7\u00e3o, entretanto, vem acompanhada de tens\u00f5es pr\u00f3prias do la\u00e7o social contempor\u00e2neo. Em uma web 4.0 onde tudo pode ser nomeado, performado e categorizado por <em>hashtags,<\/em> h\u00e1 o risco de que identidades se cristalizam em posi\u00e7\u00f5es r\u00edgidas, como humano\/n\u00e3o humano. A discuss\u00e3o na noite do CIEN lan\u00e7ou quest\u00f5es cruciais: pode a escola se adaptar a essas novas formas de nomea\u00e7\u00e3o subjetiva? A performatividade <em>therian<\/em> desafia a institui\u00e7\u00e3o escolar, ao mesmo tempo em que as redes funcionam como espa\u00e7os de acolhimento simb\u00f3lico. As falas apontam para uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre corpo e performance: \u201cquando uso minha m\u00e1scara e minha cauda, me sinto mais eu\u201d; \u201ceu sabia que aquele corpo n\u00e3o era o meu desde os sete aninhos\u201d; \u201cconsigo me encontrar quando fa\u00e7o quadrobicis de gato\u201d.<\/p>\n<p>Frente a esses deslocamentos, o que cabe \u00e0 psican\u00e1lise e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o? Como escutar e acolher singularidades que escapam ao modelo identit\u00e1rio tradicional, e que se articulam por meio de linguagens midi\u00e1ticas, gestos animalescos e experi\u00eancias algor\u00edtmicas? A web 4.0 permite ser tudo, desde que se declare, se afirme e se sustente numa comunidade regulada por c\u00f3digos pr\u00f3prios \u2013 muitas vezes indexados por hashtags e validados por algoritmos. A conversa\u00e7\u00e3o se encerrou com uma provoca\u00e7\u00e3o contundente: n\u00e3o estar\u00edamos, todos, em nossos avatares, fabricando \u201clugares\u201d blindados por estrat\u00e9gias contra os <em>haters<\/em>? Que efeitos tais experi\u00eancias t\u00eam na forma\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os e do sujeito? Onde se alojam os riscos e as pot\u00eancias desse novo modo de estar no mundo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Laborat\u00f3rio Ser, parecer, sonhar nas redes sociais O laborat\u00f3rio \u201cSer, parecer, sonhar nas redes sociais\u201d promoveu encontros com adolescentes de 12 a 16 anos, mobilizados pela inquieta\u00e7\u00e3o diante do fen\u00f4meno dos Therians \u2013 uma express\u00e3o identit\u00e1ria emergente entre jovens, especialmente nas plataformas digitais. 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