{"id":5659785,"date":"2026-04-07T20:42:27","date_gmt":"2026-04-07T23:42:27","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659785"},"modified":"2026-04-08T09:28:06","modified_gmt":"2026-04-08T12:28:06","slug":"com-quem-contar-sobre-a-minisserie-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/com-quem-contar-sobre-a-minisserie-adolescencia\/","title":{"rendered":"Com quem contar? Sobre a miniss\u00e9rie \u201cAdolesc\u00eancia\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659785?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659785?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros<\/em><\/h6>\n<p>A miniss\u00e9rie Adolesc\u00eancia aborda em quatro epis\u00f3dios uma quest\u00e3o que tem preocupado e mesmo angustiado pais, educadores, profissionais psis e da \u00e1rea da sa\u00fade e do judici\u00e1rio. Uma quest\u00e3o interdisciplinar que interessou ao CIEN e que foi trazida para debate no Cine Cien Rio na \u00faltima ter\u00e7a-feira 29 de abril de 2025.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie \u00e9 abordada do ponto de vista da investiga\u00e7\u00e3o policial, encontrar o culpado e suas raz\u00f5es para cometer o crime, que precisa ser desvendado e punido. Nas entrelinhas do enredo \u00e9 tocada a quest\u00e3o da culpa em sua dimens\u00e3o subjetiva, que vai al\u00e9m de uma quest\u00e3o policial. \u00c9 colocada em cena, com a boa atua\u00e7\u00e3o dos atores, a rela\u00e7\u00e3o da culpa com a ang\u00fastia e o apagamento da dimens\u00e3o desejante dos personagens.<\/p>\n<p>Quatro sequ\u00eancias do filme me chamaram aten\u00e7\u00e3o pelas sutilezas a\u00ed implicadas.<\/p>\n<p>A primeira quando o pai pergunta ao filho se foi ele quem matou a colega e o filho afirma de forma aparentemente segura que n\u00e3o foi ele. Logo em seguida as cenas do crime gravadas em v\u00eddeo indicam a suspeita que recai sobre ele. Ao assistirem as cenas, pai e filho choram compulsivamente. O filho repete v\u00e1rias vezes \u201cpai, pai\u201d e o pai vira as costas para o filho em desespero antes de partir para abra\u00e7a-lo e perguntar \u201co que voc\u00ea fez? por que voc\u00ea fez isso?\u201d.<\/p>\n<p>A segunda sequ\u00eancia que se sobressai \u00e9 quando mais uma psic\u00f3loga vai fazer a entrevista investigativa em busca das motiva\u00e7\u00f5es do crime. Entra com um sanduiche e um chocolate quente. Ao recebe-los o adolescente desconfia dos truques que ela est\u00e1 tentando usar para obter sua confiss\u00e3o. As perguntas giram em torno da no\u00e7\u00e3o de masculino que habita esse adolescente, abordando sua rela\u00e7\u00e3o com o pai e aspectos de sua vida sexual. Ele reage as perguntas, mas depois de algumas crises de desespero, deixa transparecer em sua fala frases como \u201co que fiz&#8230; \u201c, tentando inocentar o pai, ao mesmo tempo em que se refere as crises disruptivas paternas, minimizando seus efeitos. Nessa entrevista aparecem as contradi\u00e7\u00f5es em sua fala. Nova crise e uma demanda de amor \u00e0 psic\u00f3loga para poup\u00e1-lo do que ele pr\u00f3prio percebe que j\u00e1 denunciou.<\/p>\n<p>A terceira sequ\u00eancia acontece depois de um ataque do pai ao adolescente que teria pichado seu carro de trabalho com a palavra \u201ctarado\u201d, que ele n\u00e3o consegue apagar. Joga em desespero a tinta para recobri-la. Na volta para casa recebe um telefonema do filho lhe felicitando pelo seu anivers\u00e1rio e fazendo refer\u00eancia ao cart\u00e3o que tinha enviado para o pai. O cart\u00e3o traz a marca de seu talento e de seu gosto pelo desenho que talvez tenham passado despercebido e n\u00e3o valorizado pelos familiares. Logo em seguida o adolescente anuncia que vai confessar o crime. Diz ele que falta pouco para o julgamento e ele decidiu confessar. Sua fala \u00e9 firme, n\u00e3o tem o tom de queixa, nem de padecimento que sua m\u00e3e quis trazer ao se referir a comida ruim do pres\u00eddio. Esse \u00e9 um momento de virada decisivo, findam os risos encobridores da trag\u00e9dia, findam as brincadeiras que antecederam a agress\u00e3o do pai ao adolescente suposto de pichar seu carro. Aparecem os choros desesperados. A m\u00e3e adquire outra postura diferente daquela de um riso sem sentido colado em seu rosto.<\/p>\n<p>A quarta sequ\u00eancia vem de forma forte, o di\u00e1logo entre pai e m\u00e3e no quarto do casal ao lado do quarto do filho, quando enfim se perguntam em que erraram, qual a culpa deles. O pai diz que quis fazer diferente do pr\u00f3prio pai que lhe batia, mas o que resultou disso foi deixa-lo s\u00f3 no seu quarto, onde achava que ele estaria protegido. A m\u00e3e se refere \u00e0 luz acessa que podia ver atrav\u00e9s da porta fechada do filho at\u00e9 tarde da noite. A luz se apagava e se apagava assim pra ela a fun\u00e7\u00e3o que poderia ter para o filho, seu interesse no que fazia aquela luz acessa. Atr\u00e1s da luz tinha um adolescente atravessado por v\u00e1rias quest\u00f5es que lhe invadiam sem que ele pudesse abord\u00e1-las, compartilh\u00e1-las. As quest\u00f5es se fecham ao mesmo tempo que a porta do quarto se fecha e a luz se apaga. A sa\u00edda do quarto o leva a uma passagem ao ato. Destruir antes de poder interrogar o que estava em jogo no que lhe atormentava e que s\u00f3 tinha como interlocutores os dois colegas, certamente atravessados tamb\u00e9m pelos mesmos impasses e o anonimato nas redes sociais. As respostas j\u00e1 prontas que encontram nesse espa\u00e7o bloqueiam o surgimento de perguntas e empurram para os embates sem levar em considera\u00e7\u00e3o suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Extrair essas quatro sequ\u00eancias da miniss\u00e9rie Adolesc\u00eancia me levou a considerar o sonho de um pai, relatado por Freud no qual aparece seu filho j\u00e1 falecido e lhe diz: \u201cpai n\u00e3o v\u00eas que estou queimando\u201d. O sonho aconteceu quando o pai tentava descansar no aposento ao lado do lugar onde seu filho morto estava sendo velado. Ele tinha deixado algu\u00e9m em seu lugar, que tamb\u00e9m dormiu e n\u00e3o percebeu que a vela ao cair estava incendiando o cad\u00e1ver. O clar\u00e3o provocou o sonho do pai, mas s\u00f3 a frase dita pelo filho no sonho o acordou. A frase do filho toca em um ponto de insuport\u00e1vel que acorda. N\u00e3o s\u00f3 o insuport\u00e1vel da perda do filho, mas o que da experi\u00eancia do filho lhe escapou, aquilo que queimou no filho ao longo de sua exist\u00eancia. Um ponto de imposs\u00edvel que faz parte da experi\u00eancia \u201cdo pai enquanto pai \u2013 isto \u00e9, nenhum ser consciente\u201d, diz Lacan. Com isso ele indica uma fun\u00e7\u00e3o e seus limites, o que permite abrir novos caminhos. Paradoxalmente \u00e9 o consentimento com esse ponto de imposs\u00edvel que pode sustentar a rela\u00e7\u00e3o entre um pai e um filho que n\u00e3o se reduz a alternativa puni\u00e7\u00e3o ou permissividade, que se traduz por um tipo cruel de abandono. O seriado nos provoca a pensar o que pode abrir para um campo novo de rela\u00e7\u00e3o entre pais e filhos, quando n\u00e3o est\u00e1 mais apoiada na tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 mais para fazer como seu pai fez com voc\u00ea com suas chibatadas, diz o pai nessa s\u00e9rie. \u00c9 no a-posteriori da trag\u00e9dia de um crime hediondo, como diz o policial, que surge para os pais do adolescente uma quest\u00e3o sobre como poderia ter sido diferente. Essa quest\u00e3o interessa ao debate interdisciplinar no CIEN.<\/p>\n<p>Com quem crian\u00e7as e adolescentes podem contar para n\u00e3o ficarem entregues a si mesmos quando tem que lidar com a estranheza que habita tanto seu corpo como os la\u00e7os sociais mais diversos na fam\u00edlia e fora dela. Quando a alteridade consigo mesmo e com o outro amedronta pode empurrar a passagem ao ato se n\u00e3o houver a chance de uma suspens\u00e3o que d\u00ea lugar a um tempo de elabora\u00e7\u00e3o. Esse tempo requer a presen\u00e7a, a interven\u00e7\u00e3o de um outro que consinta com a alteridade.<\/p>\n<p>Onde as crian\u00e7as e adolescentes podem encontrar, no atual estado de nossa civiliza\u00e7\u00e3o hedonista e consumista um ponto de imposs\u00edvel que lhes permitam desenvolver suas possibilidades de inventar novos caminhos que tragam a marca do que lhe \u00e9 mais pr\u00f3prio?<\/p>\n<p>Jamie gostava de desenhar, tinha talento para isso, mas tinha que seguir um certo padr\u00e3o de masculinidade oferecido pelo pai, futebol, box que o levava ao fracasso e ao encontro da decep\u00e7\u00e3o paterna. Como podemos estar atentos ao libidinal que queima nos filhos e que pode se transformar em causa de desejo e n\u00e3o s\u00f3 de insatisfa\u00e7\u00e3o e decep\u00e7\u00e3o? Como n\u00e3o fazer do encontro com o que escapa na experi\u00eancia dos jovens uma raz\u00e3o para o afastamento, o desprezo, a recrimina\u00e7\u00e3o, mas um interesse vivo em segui-los em seus impasses e suas descobertas. Poder olhar para onde eles est\u00e3o olhando, para onde eles est\u00e3o apontando e poder encontrar o que os preocupa, o que os intriga, o que os desanima, o que os motivam. Enfim poder entrar em contato com o que eles buscam sem saber muito como fazer. Do interesse genu\u00edno pode advir formas in\u00e9ditas de estar ao lado, de seguir sem invadir, sem abandonar.<\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios do CIEN presentes nas institui\u00e7\u00f5es e nos locais, nos quais as crian\u00e7as circulam e vivem seus impasses, tem muito a nos ensinar sobre essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros A miniss\u00e9rie Adolesc\u00eancia aborda em quatro epis\u00f3dios uma quest\u00e3o que tem preocupado e mesmo angustiado pais, educadores, profissionais psis e da \u00e1rea da sa\u00fade e do judici\u00e1rio. 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