{"id":5659791,"date":"2026-04-07T21:05:42","date_gmt":"2026-04-08T00:05:42","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659791"},"modified":"2026-04-08T09:31:53","modified_gmt":"2026-04-08T12:31:53","slug":"fragmentos-do-gozo-dando-forma-ao-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/fragmentos-do-gozo-dando-forma-ao-desejo\/","title":{"rendered":"Fragmentos do gozo dando forma ao desejo"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659791?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659791?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Ana Lydia Santiago<\/em><\/h6>\n<p><strong>A cena do inconsciente:<\/strong> <strong>o fantasma, mais al\u00e9m dos discursos<\/strong><\/p>\n<p>Se procuramos coment\u00e1rios sobre o filme <em>Billy Elliot<\/em>, vamos encontrar pareceres elogiosos sobre seus atores \u2013 em especial Jamie Bell que encena Billy \u2013, considera\u00e7\u00f5es un\u00e2nimes acerca da sensibilidade do filme e sua capacidade de tocar os espectadores. As an\u00e1lises de conte\u00fado destacam a luta contra o preconceito, a supera\u00e7\u00e3o de adversidades e a for\u00e7a da fam\u00edlia. Esses temas, sem d\u00favida, est\u00e3o na ordem do dia dos discursos atuais. Contudo, convidaria voc\u00eas a reconhecer no cen\u00e1rio desse filme uma alegoria do inconsciente. O mar infinito encontrando o limite imagin\u00e1rio do horizonte \u00e9 mostrado em poucas cenas, atr\u00e1s de um muro, que se imp\u00f5e. Dir\u00edamos que \u00e9 a libido infinita, que contrasta com o espa\u00e7o circunscrito por constru\u00e7\u00f5es de tijolos. Todas imagens muito semelhantes, familiares, mas complexas e labir\u00ednticas em seu interior, habitando cenas inimagin\u00e1veis e corriqueiras ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>A maioria das cenas externas t\u00eam como pano de fundo a opress\u00e3o policial contra o movimento grevista dos mineiros e suas ideias. E, em meio a tudo isso, o gozo e o trabalho significante, duas componentes absolutamente heterog\u00eaneas, mas que se articulam de alguma maneira a partir de sulcos e tra\u00e7os que representam o sujeito sempre evanescente em sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto.<\/p>\n<p>Tr\u00eas crian\u00e7as: Billy, Michael e Debbie. Michael \u00e9 o amigo de Billy, que se recusa a entrar no gin\u00e1sio para as aulas de boxe, como os outros meninos do vilarejo. Debbie \u00e9 bailarina, filha da professora de dan\u00e7a. Veremos a diferen\u00e7a entre esses dois amigos, capturados pelo objeto do fantasma, e Billy, que est\u00e1 mais conectado com o desejo circunscrito a partir de uma falta, de um objeto perdido, que deixou fragmentos de palavras e gozo. Billy \u00e9 convocado por cada um dos amigos a ocupar o lugar do objeto do fantasma deles, o que recusa, sem hesitar.<\/p>\n<p><strong>O objeto perdido e o que resta<\/strong><\/p>\n<p>Billy entra no gin\u00e1sio para seu treino de boxe. O treinador anuncia que o est\u00fadio de dan\u00e7a ser\u00e1 usado pelos grevistas, e por conseguinte, as aulas de dan\u00e7a da Sra. Wilkinson passar\u00e3o a acontecer na mesma sala que o boxe. Enquanto um piano e algumas garotas de tutus entram no gin\u00e1sio, Billy sobe no ringue e \u00e9 golpeado com uma direita, sob o olhar desolado de seu pai. Billy ainda est\u00e1 no ringue estirado no ch\u00e3o, quando repara o deslocamento do piano pela sala.<\/p>\n<p>Juntando os detalhes que as cenas do filme v\u00e3o tramando e propondo diante dos olhos de seus espectadores, pode-se dizer que o piano \u00e9 o objeto que chama a aten\u00e7\u00e3o de Billy, pela conex\u00e3o com sua m\u00e3e. Em uma das primeiras cenas do filme, Billy tenta encontrar uma melodia no piano, reproduzindo uma sequ\u00eancia de tr\u00eas ou quatro notas. Sua av\u00f3 o observa e murmura os sons. Mas seu pai, Jackie, fica perturbado e, fechando a tampa do piano com um gesto brusco, lhe diz: \u201cPara com isso, Billy\u201d. Em seguida, sai apressado para a jornada de greve na mina onde trabalha. Billy reabre o instrumento e repete as mesmas notas, n\u00e3o sem retrucar: \u201cMinha m\u00e3e n\u00e3o teria se importado\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que ficamos sabendo que o piano e a m\u00e3e est\u00e3o entrela\u00e7ados na lembran\u00e7a da crian\u00e7a. Apenas mais tarde, na cena em que Billy e a av\u00f3 v\u00e3o ao cemit\u00e9rio, vamos entender que se trata de Jenny Elliot, falecida prematuramente, de acordo com a inscri\u00e7\u00e3o em sua l\u00e1pide. Enquanto a estrat\u00e9gia do marido \u00e9 negar o fato, evitando lembrar-se da esposa, a av\u00f3 de Billy, com semblante alheio e mem\u00f3ria enfraquecida em fun\u00e7\u00e3o da idade avan\u00e7ada, acompanha o som do piano, murmura a melodia e relata para o neto lembran\u00e7as de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 cena no gin\u00e1sio: Billy segue com os olhos o objeto piano at\u00e9 o canto em que este \u00e9\u00a0 instalado para as aulas de bal\u00e9. Ap\u00f3s o treino de boxe \u2013 obrigado a permanecer no local\u00a0 para treinar mais \u2013, o som do piano o desconcentra e ele vai espreitar. Fica olhando o movimento das bailarinas executando passos ao ritmo da m\u00fasica sob as determina\u00e7\u00f5es da professora. De repente, Debbie lhe faz um convite, cujas palavras come\u00e7am a dar corpo ao seu desejo. Ela lhe diz: \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o entra?\u201d Depois refor\u00e7a: \u201cOs meninos podem fazer dan\u00e7a sem serem \u2018bichas\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Em outra cena, a av\u00f3 comenta: \u201cFred Astaire era o preferido de sua m\u00e3e!\u201d Palavras que como marcas sonoras, sulcam o corpo e delimitam o vazio do desejo. \u201cN\u00f3s \u00edamos assistir no cinema Palace Hall e depois dan\u00e7\u00e1vamos na sala, feito doidas. Maravilhoso! Eles diziam que eu poderia ter sido uma profissional!\u201d<\/p>\n<p>Enquanto pai e irm\u00e3o est\u00e3o no movimento de greve, Billy, \u00e0s escondidas, se movimenta nas aulas de dan\u00e7a. Mas seu pai descobre e o pro\u00edbe brutalmente de qualquer atividade fora de casa. Billy reage, dizendo-lhe: \u201cEu odeio voc\u00ea!\u201d Nesse momento, seu corpo se infla de raiva, ele se precipita para a rua dan\u00e7ando sem parar. Ele dan\u00e7a, dan\u00e7a, at\u00e9 encontrar uma parede que lhe faz limite. \u201cEu n\u00e3o quero ter inf\u00e2ncia. Eu quero ser bailarino.\u201d A av\u00f3, que presenciou a conversa entre pai e filho, comenta novamente: \u201cEu poderia ter sido uma profissional se tivesse praticado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que voc\u00ea sente quando dan\u00e7a?\u201d, pergunta-lhe uma das juradas da banca de sele\u00e7\u00e3o para a escola do Royal Ballet.<\/p>\n<p>Billy responde:<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Eu me sinto bem.<\/p>\n<p>\u00c9 meio duro no in\u00edcio, mas depois eu esque\u00e7o de tudo e \u00e9 como se eu desaparecesse. Sinto uma mudan\u00e7a no meu corpo todo. Como se eu pegasse fogo. Eu fico l\u00e1, voando, como um p\u00e1ssaro. Como uma eletricidade. Como eletricidade!<\/p>\n<p>Billy \u00e9 aceito no Royal Ballet. A fam\u00edlia comemora e somente nesse momento podem escutar a av\u00f3 repetir o que provavelmente teria escutado de um Outro: \u201cAcho que voc\u00ea deveria aprender um trabalho manual, alguma coisa \u00fatil.\u201d E a resposta indignada do sujeito: \u201cEu poderia ter sido uma bailarina!\u201d<\/p>\n<p><strong>A f\u00f3rmula do fantasma<\/strong><\/p>\n<p>$ &lt;&gt; a apresenta a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o objeto do gozo, o objeto pequeno <em>a, <\/em>como Lacan o nomeou. Freud isolou dois objetos \u2013 o seio e o excremento \u2013, aos quais Lacan acrescentou outros dois: o olhar e a voz. Esses quatro objetos s\u00e3o objetos substitutos da falta. Eles se constituem na rela\u00e7\u00e3o singular do <em>infans<\/em> com o Outro que o assiste, organizando a libido e sua circula\u00e7\u00e3o em torno dos orif\u00edcios do corpo. \u00c9 a partir do vazio de gozo extra\u00eddo como ponto de partida, que a libido pode circular e, assim, o corpo se torna corpo er\u00f3geno. Na f\u00f3rmula do fantasma, o sujeito \u00e9 sujeito dividido, sempre evanescente em rela\u00e7\u00e3o ao objeto e ao Outro.<\/p>\n<p>Como refletir sobre essa breve considera\u00e7\u00e3o no caso das crian\u00e7as do filme?<\/p>\n<p>Michael comenta com Billy ter visto seu pai vestido de mulher. Ele se oferece nesse lugar ao olhar do Outro. Recusa-se \u00e0s coisas de menino, aceitando entrar no gin\u00e1sio apenas quando pode vestir-se com tutu para fazer par com Billy. Debbie, por sua vez, conta a Billy sobre a decep\u00e7\u00e3o amorosa de sua m\u00e3e, ao descobrir a trai\u00e7\u00e3o do marido. Falando com muita propriedade das coisas de sexo, ela seduz Billy, perguntando-lhe: \u201cVoc\u00ea quer que eu mostre minha perereca?\u201d Billy responde: \u201cMelhor n\u00e3o.\u201d Assim ela o convida a ocupar o lugar de objeto, a partir do qual ela poderia dedicar-se ao fantasma de completar o parceiro, sendo uma companheira perfeita, que n\u00e3o foge do sexo. Chega a explicar-lhe tudinho, mas Billy surpreende-se:\u00a0 \u201cEla (sua m\u00e3e) dan\u00e7a ao inv\u00e9s de fazer sexo?\u201d<\/p>\n<p>Tanto para Michael, quanto para Debbie, a resposta negativa de Billy \u00e9 firme. O gozo em seu corpo \u00e9 de outra ordem, como explicita em sua resposta \u00e0 jurada da banca de sele\u00e7\u00e3o: o sujeito desaparece, \u00e9 pura eletricidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ana Lydia Santiago A cena do inconsciente: o fantasma, mais al\u00e9m dos discursos Se procuramos coment\u00e1rios sobre o filme Billy Elliot, vamos encontrar pareceres elogiosos sobre seus atores \u2013 em especial Jamie Bell que encena Billy \u2013, considera\u00e7\u00f5es un\u00e2nimes acerca da sensibilidade do filme e sua capacidade de tocar os espectadores. 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