{"id":5659793,"date":"2026-04-07T21:13:44","date_gmt":"2026-04-08T00:13:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659793"},"modified":"2026-04-08T12:27:06","modified_gmt":"2026-04-08T15:27:06","slug":"as-criancas-e-seus-objetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/as-criancas-e-seus-objetos\/","title":{"rendered":"As crian\u00e7as e seus objetos"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659793?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659793?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h6><em>Daniel Roy<\/em><\/h6>\n<p>Tomado ao p\u00e9 da letra, o tema \u201cAs crian\u00e7as e seus objetos\u201d destaca a dimens\u00e3o do m\u00faltiplo \u2013 um convite a n\u00e3o fazer uma ess\u00eancia da \u201ccrian\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 duas multiplicidades \u2013 de um lado \u201cas crian\u00e7as\u201d, do outro \u201cos objetos\u201d \u2013 que est\u00e3o ligadas por este determinante possessivo \u201cseus\u201d. As crian\u00e7as est\u00e3o a\u00ed, de alguma forma, determinadas pelos objetos que elas tornam seus. Quanto aos objetos, somente as crian\u00e7as poder\u00e3o nos ensinar o que eles s\u00e3o e quais s\u00e3o os usos que fazem deles e para quais fun\u00e7\u00f5es. E o v\u00ednculo deles, trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o de posse? Temos a oportunidade de interrogar essa rela\u00e7\u00e3o com base no que as crian\u00e7as nos contam sobre ela.<\/p>\n<p>Esses dois conjuntos, \u201ccrian\u00e7as\u201d e \u201cobjetos\u201d, devem, portanto, ser entendidos como semblantes, tal como Lacan os define, como significantes que s\u00e3o regulados uns em rela\u00e7\u00e3o aos outros. \u00c9 por isso que, nos servindo dos termos destacados por Jacques-Alain Miller, nos beneficiaremos ao considerar crian\u00e7as e objetos como <em>parceiros no jogo da vida<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Os \u201cpequenos objetos [<em>menus objets<\/em>]\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201c<em>menus<\/em> <em>objets<\/em>\u201d (pequenos objetos) surge diversas vezes no ensino de Lacan, express\u00e3o bem formada para enfatizar que as crian\u00e7as colocam os objetos em seus <em>menus<\/em> e para sugerir que, ocasionalmente, certos objetos consomem, inclusive as crian\u00e7as s\u00e3o consumidas. Esta \u00e9 a abordagem dos objetos escolhida para esta apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, no encontro \u2013 em uma cura anal\u00edtica, em uma psicoterapia, nas institui\u00e7\u00f5es, na creche, no hospital, na escola \u2013 as crian\u00e7as se apresentam com seus <em>menus objetos<\/em> ou pegam os <em>menus objetos<\/em> que lhes s\u00e3o disponibilizados, ou precisamente aqueles que n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>A partir do tratamento, dir\u00edamos que as crian\u00e7as se analisam <em>com<\/em> seus objetos. \u00c9 de fato nesse enquadre que elas nos ensinam de que mat\u00e9ria eles s\u00e3o feitos, e esse saber ser\u00e1 muito \u00fatil em outras institui\u00e7\u00f5es, bem como na vida cotidiana. Porque a presen\u00e7a desses objetos n\u00e3o \u00e9, em nenhum caso, uma quest\u00e3o de t\u00e9cnica anal\u00edtica aplicada \u00e0s crian\u00e7as: trata-se de acolher os objetos parceiros da crian\u00e7a. Claro que eles nem sempre aparecem; ent\u00e3o, temos que procur\u00e1-los: eles est\u00e3o em algum lugar, na sala de espera, em casa, na rua ou nos novos espa\u00e7os criados pela ci\u00eancia, objetos fisicamente separados da crian\u00e7a, mas intimamente ligados a ela.<\/p>\n<p>Objetos tradicionais da demanda ou novos objetos produtos da tecnologia, n\u00f3s os reconhecemos facilmente no cotidiano das crian\u00e7as: na fam\u00edlia, s\u00e3o estes os objetos dos quais, em certas ocasi\u00f5es, elas estar\u00e3o privadas, sob a forma de amea\u00e7a ou na realidade; na escola, no ensino fundamental, no ensino m\u00e9dio, s\u00e3o aqueles que ser\u00e3o confiscados. Aqui est\u00e3o os objetos preciosos da crian\u00e7a sequestrados em m\u00e1 companhia, aquela do \u201ccastigo\u201d, que agora ostentar\u00e3o a marca da inf\u00e2mia.<\/p>\n<p><strong>\u201cO vi\u00e9s das coisas\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p>Isto nos encoraja, em nossa pr\u00e1tica, a escolher o \u201cvi\u00e9s das coisas\u201d [1], como Francis Ponge destaca em sua colet\u00e2nea de poemas ep\u00f4nima, ou seja, a considerar os objetos em sua materialidade e no seu \u201c<em>mot\u00e9rialisme<\/em>\u201d [2]. O poeta faz escutar dois modos da exist\u00eancia das \u201ccoisas\u201d: objetos do mundo sens\u00edvel e resson\u00e2ncias da l\u00edngua. O vi\u00e9s do poeta pelas coisas \u00e9 da mesma ordem que o vi\u00e9s das crian\u00e7as pelos objetos que veem ao seu encontro.<\/p>\n<p>Neste movimento onde acolhemos as crian\u00e7as com seus objetos, descobrimos que h\u00e1, realmente, um vi\u00e9s dos pr\u00f3prios objetos, que eles s\u00e3o parte disso e que desempenham seu papel. E isto de duas maneiras: pelo golpe que recebem de sua escolha por esta crian\u00e7a \u2013 na pura conting\u00eancia do instant\u00e2neo do momento em que isso acontece \u2013 e, tamb\u00e9m, pela marca que recebem de sua inscri\u00e7\u00e3o como significantes na atualidade do discurso. Este segundo tempo, de subjetiva\u00e7\u00e3o, responde \u00e0 temporalidade do <em>a posteriori<\/em>, na tomada de posi\u00e7\u00e3o do sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao tempo precedente. Na falta deste tempo 2, o objeto persevera em seu ser de gozo sem o recurso de seu ser de semblante, contaminando at\u00e9 mesmo seu ser de semblante que lhe retorna alucinado e persecut\u00f3rio \u2013 iremos nos referir ao caso Robert, a crian\u00e7a lobo [3].<\/p>\n<p>\u00c9, de fato, como semblantes que os objetos s\u00e3o manipul\u00e1veis \u2013 troc\u00e1veis, roubados, emprestados ou dados, perdidos ou encontrados. Eles possuem muitas outras qualidades n\u00e3o psicol\u00f3gicas que os tornam mais dispon\u00edveis do que as pessoas que rodeiam a crian\u00e7a, mais confi\u00e1veis e mais est\u00e1veis do que os seres falantes. Os objetos suportam muito mais coisas, eles podem ser destru\u00eddos sem qualquer medida de retalia\u00e7\u00e3o da parte deles.<\/p>\n<p>Os objetos tamb\u00e9m fornecem indica\u00e7\u00f5es precisas sobre as \u201cteorias do Outro\u201d elaboradas pelo sujeito.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de saber-fazer com os objetos, o que proporciona uma certa satisfa\u00e7\u00e3o. Se a constru\u00e7\u00e3o de Lego desaba, s\u00f3 resta chorar ou explodir tudo! \u00c9 esperado dos objetos, de fato, uma forma especial de garantia, uma garantia gratuita, sem contrato ou credo pr\u00e9vio. A \u00fanica promessa \u2013 mas que promessa! \u2013 \u00e9 que isso aguente firme, na medida em que a pr\u00f3pria crian\u00e7a colocou ali algo de seu.<\/p>\n<p>Os objetos inanimados, sem d\u00favida, t\u00eam uma alma, e at\u00e9 mesmo pequenos amontoados de almas, como os psicanalistas aprenderam com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Freud e os primeiros psicanalistas descobriram os <em>menus<\/em> objetos das crian\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p><strong>Freud<\/strong><\/p>\n<p>Isso cai bem, o primeiro objeto que cai sob a pena de Freud \u00e9 um objeto novo, exatamente descoberto por um pediatra, um objeto de satisfa\u00e7\u00e3o capaz de substituir o prazer da amamenta\u00e7\u00e3o, um objeto que a crian\u00e7a coloca <em>no seu menu<\/em>! Este objeto \u00e9 chamado de \u201co sugador\u201d (<em>das Ludeln<\/em>), um objeto criado pela crian\u00e7a a servi\u00e7o dessa satisfa\u00e7\u00e3o obtida como deriva\u00e7\u00e3o da amamenta\u00e7\u00e3o. A l\u00edngua, o polegar, a chupeta, n\u00e3o s\u00e3o substitutos do seio, s\u00e3o objetos a servi\u00e7o da satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva: a primeira descoberta de Freud a respeito dos objetos da crian\u00e7a, descoberta fundadora da sexualidade infantil. Observemos que esta n\u00e3o \u00e9 uma substitui\u00e7\u00e3o que tem como resultado uma soma zero. No come\u00e7o h\u00e1 uma perda \u2013 \u201ca busca de um prazer \u2013 j\u00e1 vivido&#8230;\u201d \u2013, depois um modo de recupera\u00e7\u00e3o da perda que n\u00e3o a anula \u2013 \u201c&#8230; e agora lembrado\u201d [4].<\/p>\n<p>Uma segunda descoberta de Freud \u2013 que esteve em destaque na prepara\u00e7\u00e3o da 8\u00aa Jornada do Instituto Psicanal\u00edtico da Crian\u00e7a \u2013 \u00e9 o famoso jogo de carretel de seu neto [5]. Recordemos aqui que este objeto assume um valor particular para a crian\u00e7a, por um lado, pela sua inscri\u00e7\u00e3o na dimens\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer e, por outro lado, pelo seu poder de fazer surgir um novo espa\u00e7o atrav\u00e9s da voz da crian\u00e7a (<em>Fort-Da<\/em>) e atrav\u00e9s do seu olhar (fazer desaparecer e aparecer). Este \u00e9 o sentido do coment\u00e1rio de Lacan: \u201c\u00c9 com seu objeto que a crian\u00e7a salta as fronteiras de seu dom\u00ednio transformado em po\u00e7o e que come\u00e7a a encanta\u00e7\u00e3o.\u201d [6] O jogo do carretel aqui funciona para se distanciar parcialmente da demanda ao Outro e do Outro, bem como para dar um lugar ao seu desejo <em>atrav\u00e9s<\/em> dos objetos pulsionais.<\/p>\n<p>Uma terceira descoberta diz respeito ao objeto como fetiche, que faz mancha no sentido de que \u00e9 um objeto qualquer, retirado do corpo do outro ou do pr\u00f3prio corpo, suscet\u00edvel de estar contaminado pela satisfa\u00e7\u00e3o, seguindo estranhas vias de condu\u00e7\u00e3o, sublinhadas por Freud, aquelas de resson\u00e2ncias lingu\u00edsticas [7].<\/p>\n<p><strong>Melanie Klein<\/strong><\/p>\n<p>Para Melanie Klein, dois princ\u00edpios regem a vida ps\u00edquica das crian\u00e7as em sua rela\u00e7\u00e3o com os objetos: a inveja \u2013 s\u00f3 h\u00e1 objeto incorporado \u2013 e a destrui\u00e7\u00e3o \u2013 todo objeto \u00e9 suscet\u00edvel de ser destru\u00eddo. \u00c9 muito interessante reler o coment\u00e1rio de Lacan sobre a apresenta\u00e7\u00e3o do caso Dick por Melanie Klein, em seu Semin\u00e1rio 1, <em>Os escritos t<\/em>\u00e9cnicos de Freud. Na verdade, ele indica ali que \u00e9 o processo de destrui\u00e7\u00e3o aplicado aos objetos que vai abrir para a crian\u00e7a o mundo humano, pela via do \u201cinteresse pelos objetos enquanto distintos\u201d [8]. Esta \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o fundamental na medida em que podemos nos referir \u00e0s descobertas de Freud: substitui\u00e7\u00e3o, condensa\u00e7\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o, contamina\u00e7\u00e3o pela l\u00edngua s\u00e3o as vias de condu\u00e7\u00e3o do gozo que se abrem \u00e0 descoberta de \u201cum mundo infinito quanto aos objetos\u201d [9]. Mas n\u00e3o sem o assentimento do sujeito, uma <em>Bejahung<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Winnicott<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o nos determos com Lacan na descoberta de Winnicott do que ele chamou \u201co objeto transicional\u201d, do qual ele diz que \u201co importante n\u00e3o \u00e9 tanto seu valor simb\u00f3lico, mas sua realidade (<em>actuality<\/em>)\u201d [10]. A caracter\u00edstica essencial desse objeto \u00e9 que ele \u00e9 acordado que n\u00e3o ser\u00e1 perguntado \u00e0 crian\u00e7a se ela o criou ou o encontrou. Lacan comenta: \u201cTodos os objetos dos jogos da crian\u00e7a s\u00e3o objetos transicionais. Os brinquedos, falando propriamente, a crian\u00e7a n\u00e3o precisa que lhe sejam dados, j\u00e1 que os cria a partir de tudo o que lhe cai nas m\u00e3os. S\u00e3o objetos transicionais. A prop\u00f3sito destes, n\u00e3o \u00e9 preciso perguntar se s\u00e3o mais subjetivos ou mais objetivos \u2013 eles s\u00e3o de outra natureza.\u201d [11]. Lacan vai se interessar por esse novo espa\u00e7o que os objetos transicionais criam, um espa\u00e7o cuja verdadeira for\u00e7a motriz \u00e9 \u201ca falta do objeto\u201d.<\/p>\n<p>O objeto transicional deu, em um momento particular de nossa cultura, o modelo de objetos domesticados e a imagem de um gozo apaziguado, todos os objetos considerados como possivelmente reparadores.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, um outro objeto veio contrariar essa tend\u00eancia: \u00e9 o objeto aut\u00edstico, objeto tir\u00e2nico, que parece devorar a crian\u00e7a, expuls\u00e1-la do mundo humano, vociferar com ela e vigi\u00e1-la permanentemente.<\/p>\n<p><strong>Com Lacan, descoberta de um novo objeto<\/strong><\/p>\n<p>Desde a sua inven\u00e7\u00e3o por Lacan, o objeto <em>a<\/em> recolhe e condensa as qualidades e valores dos objetos, tais como isolados por Freud e seus alunos. Vamos seguir aqui o fio condutor dos \u201c<em>menus<\/em> objetos\u201d.<\/p>\n<p>Em 1958, em \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d, a respeito da instaura\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, Lacan indica: \u201ctodos sabem, e os psicanalistas de crian\u00e7as em primeiro lugar, que \u00e9 preciso um bocado de pequenos [<em>menu<\/em>] objetos para manter uma rela\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a\u201d [12]. A fun\u00e7\u00e3o deles \u00e9 a de abertura da dimens\u00e3o da demanda. A materialidade dos <em>menus<\/em> objetos \u00e9 colocada a servi\u00e7o do valor significante deles. Mas, para a crian\u00e7a que entra na fala, \u00e9 sob a forma de um nome pr\u00f3prio que ela acolhe cada novo objeto em sua <em>lalangue<\/em>, sem maior considera\u00e7\u00e3o pela pron\u00fancia correta ou atribui\u00e7\u00e3o comum. Como Lacan enfatizou anos depois: a materialidade dos objetos n\u00e3o pode ser concebida, a partir da experi\u00eancia anal\u00edtica, sem seu <em>moterialismo<\/em>.<\/p>\n<p>Em 1967, em <em>O ato psicanal\u00edtico<\/em>, Lacan enfatiza \u201cas fun\u00e7\u00f5es desse pequeno [menu] objeto cujo estatuto Winnicott articula para n\u00f3s\u201d [13], pois escava o lugar que aguarda o sujeito, n\u00e3o o da nostalgia ou da inveja de um gozo perdido para sempre, mas o lugar que sempre permaneceu intacto e atual do <em>Lust Ich<\/em> (\u201ca mim a regra do meu prazer\u201d): neste <em>Lust Ich<\/em> que \u00e9 verdadeiramente um brincalh\u00e3o sagrado, o sujeito ter\u00e1 que se reconhecer! \u00c9 o objeto da ang\u00fastia que mostra a\u00ed o caminho a seguir: \u201cj\u00e1 temos para nos guiar o objeto <em>a<\/em>\u201d [14].<\/p>\n<p>Poucos anos depois, em maio de 1970, durante seu semin\u00e1rio <em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>, Lacan usa essa express\u00e3o \u201c<em>menus<\/em> objetos\u201d para designar a presen\u00e7a de novos objetos, que v\u00eam criar e ocupar um espa\u00e7o at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido, porque inexistente, \u201ca aletosfera\u201d: \u201cE quanto aos pequenos [<em>menus<\/em>] objetos <em>a<\/em> que v\u00e3o encontrar ao sair, no pavimento de todas as esquinas, atr\u00e1s de todas as vitrines, na prolifera\u00e7\u00e3o desses objetos feitos para causar o desejo de voc\u00eas, na medida em que agora \u00e9 a ci\u00eancia que o governa, pensem neles como latusas.\u201d [15]\n<p>A cria\u00e7\u00e3o por Lacan desses dois neologismos \u2013 formados a partir do grego <em>al\u00e8th\u00e9ia<\/em>, a verdade \u2013 nos permite nomear esses novos objetos massivamente investidos pelas crian\u00e7as do s\u00e9culo, e de localiz\u00e1-los num espa\u00e7o onde s\u00e3o avaliados pelo padr\u00e3o de uma verdade puramente formal \u2013 isso funciona ou isso n\u00e3o funciona \u2013, o que lhes confere uma consist\u00eancia substancial, uma \u201cautoridade\u201d, especialmente poderosa. O que Lacan designa pelo termo <em>mais-de-gozar<\/em>, termo paradoxal para nomear esse dejeto, esse rejeito, esse resto, esse caro\u00e7o da captura num discurso, \u00e9 justamente isso que opera realmente em nossos <em>gadgets<\/em>, nossos objetos conectados, na medida em que eles est\u00e3o conectados a esse resto de gozo.<\/p>\n<p><strong>A seguir<\/strong><\/p>\n<p>Escondidos como estavam pelos bichinhos de pel\u00facia e naninhas, vemos, no <em>a posteriori<\/em> dos avan\u00e7os de Lacan, se desenhar os objetos das crian\u00e7as tal que neles mesmos o discurso os molda para estarem ao alcance das crian\u00e7as. Nessa b\u00e1scula, n\u00f3s os vemos emergir em sua realidade efetiva, como objeto <em>a<\/em> em sua <em>Wirklichkeit<\/em> de gozo e de semblante. Suas fun\u00e7\u00f5es ficam assim esclarecidas:<\/p>\n<p>O objeto <em>a<\/em> separador: a servi\u00e7o da demanda, os objetos colocam as crian\u00e7as em contato com o lugar do Outro, espa\u00e7o simb\u00f3lico onde o sujeito encontra seu lugar como falta. Objetos n\u00e3o mais reparadores, eles podem ent\u00e3o atuar como <em>objetos separadores<\/em> para se destacarem da depend\u00eancia da demanda do Outro e ao Outro.<\/p>\n<p>O objeto <em>a<\/em> como <em>agalma<\/em> e como pe\u00e7a solta do corpo, objeto parcial: ele funciona ali como um <em>objeto condensador<\/em> para o gozo despojado do corpo [16]; a este respeito os objetos d\u00e3o consist\u00eancia ao espa\u00e7o do Outro como corpo, onde encontram lugar como \u201cdejetos ex\u00f3ticos\u201d. Mas agora tornados objetos \u201cfora do corpo\u201d, eles oferecem uma nova perspectiva sobre o objeto, o de uma falta inclu\u00edda em cada objeto de interesse, de gosto, de valor, a saber o que n\u00e3o se pode dizer e que, neste lugar, causa a ang\u00fastia [17].<\/p>\n<p>O objeto <em>a<\/em> \u201cn\u00facleo elabor\u00e1vel do gozo [18]\u201d: os objetos tamb\u00e9m d\u00e3o exist\u00eancia e autoridade ao <em>objeto gozo<\/em> [19], que abre um acesso direto ao <em>Lust Ich<\/em>, ao mais-de-gozar, abalando a defesa dos semblantes do Outro da linguagem e do Outro do corpo, elaborados diante do real. As crian\u00e7as de hoje s\u00e3o as exploradoras deste novo espa\u00e7o, destas novas redes, \u00e0s vezes por sua conta e risco. Ao faz\u00ea-lo, elas nos ensinam que a rela\u00e7\u00e3o com seus objetos \u00e9 fundamentalmente sintom\u00e1tica, sujeita \u00e0s leis formais ligadas ao encontro contingente do gozo com a l\u00edngua: substitui\u00e7\u00e3o e condensa\u00e7\u00e3o, contamina\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o. Da considera\u00e7\u00e3o dessas leis e da posi\u00e7\u00e3o do sujeito em rela\u00e7\u00e3o a elas, depende nossa a\u00e7\u00e3o diante de cada crian\u00e7a que encontramos com os seus <em>objetos-parceiros<\/em>.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Alessandra Thomaz Rocha<br \/>\nRevis\u00e3o: Cristina Drummond<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>[1]. Cf. PONGE, F. <em>Le Parti pris des choses<\/em>. Paris: Folio Gallimard, 1967.<\/h6>\n<h6>[2]. LACAN. J. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma. Texto estabelecido por J.-A. Miller. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 23, p. 10, dez. 1998.<\/h6>\n<h6>[3]. Cf. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 1: <em>Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. p. 122-143.<\/h6>\n<h6>[4]. Cf. FREUD, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. (1905) <em>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade, an\u00e1lise fragment\u00e1ria e uma histeria (\u201cO caso Dora\u201d) e outros textos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 85. (Obras completas, 6)<\/h6>\n<h6>[5]. Cf. FREUD, S. <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer<\/em>. (1920) Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2020. p. 69-85.<\/h6>\n<h6>[6]. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 66.<\/h6>\n<h6>[7]. Cf. FREUD, S. Fetichismo. (1927) <em>Neurose, psicose, pervers\u00e3o<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2016. p. 315-325. (Obras incompletas de Sigmund Freud, 5)<\/h6>\n<h6>[8]. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 1: <em>Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. p. 95.<\/h6>\n<h6>[9]. <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6>[10]. WINNICOTT, D. W. <em>Objetos transicionais e fen\u00f4menos transicionais<\/em>. (1971) In: WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 19.<\/h6>\n<h6>[11]. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 4: <em>A rela\u00e7\u00e3o de objeto<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. p. 34.<\/h6>\n<h6>[12]. LACAN, J. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder. In: Lacan, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 623.<\/h6>\n<h6>[13]. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 15: <em>O ato psicanal\u00edtico<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2025. p. 75.<\/h6>\n<h6>[14]. <em>Ibid<\/em>., p. 131.<\/h6>\n<h6>[15]. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 17: <em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 153.<\/h6>\n<h6>[16]. Cf. LACAN, J. Alocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a. In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 366.<\/h6>\n<h6>[17]. Cf. MILLER, J.-A. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura do Semin\u00e1rio da <em>Ang\u00fastia <\/em>de Jacques Lacan. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 43, p. 7-81, maio 2005.<\/h6>\n<h6>[18]. LACAN, J. A terceira. In: LACAN, J.; MiLLER, J.-A. _<em>A terceira e Teoria de lalingua<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar\u00a0Ed.,\u00a02022, p. 35.<\/h6>\n<h6>[19]. Cf. MILLER, J.-A. L\u2019objet jouissance. <em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, Paris, n. 94, nov. 2016.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. T.: O termo <em>menus <\/em>em franc\u00eas pode significar algo mi\u00fado, que tem pouca import\u00e2ncia, pouco volume ou pouca espessura. Algo pequeno. Mas designa tamb\u00e9m uma lista ou card\u00e1pio. Lacan denomina com essa express\u00e3o objetos ordin\u00e1rios, pequenos objetos de consumo corrente que suscitam o gozo e o desejo e podem ser associados ao objeto <em>a<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N.T.: <em>Parti-pris<\/em> \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o decidida, um ponto de vista, um vi\u00e9s escolhido.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Roy Tomado ao p\u00e9 da letra, o tema \u201cAs crian\u00e7as e seus objetos\u201d destaca a dimens\u00e3o do m\u00faltiplo \u2013 um convite a n\u00e3o fazer uma ess\u00eancia da \u201ccrian\u00e7a\u201d. Aqui h\u00e1 duas multiplicidades \u2013 de um lado \u201cas crian\u00e7as\u201d, do outro \u201cos objetos\u201d \u2013 que est\u00e3o ligadas por este determinante possessivo \u201cseus\u201d. As crian\u00e7as est\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5659793","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cien-digital-26","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659793","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5659793"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659793\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5659892,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659793\/revisions\/5659892"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5659793"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5659793"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5659793"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5659793"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}