{"id":5659798,"date":"2026-04-07T21:19:39","date_gmt":"2026-04-08T00:19:39","guid":{"rendered":"https:\/\/ciendigital.com.br\/?p=5659798"},"modified":"2026-04-08T09:36:41","modified_gmt":"2026-04-08T12:36:41","slug":"abertura-depois-da-de-nohemi-brown-4-setembro-de-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2026\/04\/07\/abertura-depois-da-de-nohemi-brown-4-setembro-de-2025\/","title":{"rendered":"Sobre a necessidade de fic\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659798?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5659798?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ciendigital.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Carolina Koretzky<\/em><\/h6>\n<p>Gostaria de compartilhar com voc\u00eas alguns elementos te\u00f3ricos relativos aos sonhos e pesadelos nas crian\u00e7as \u2013 podemos at\u00e9 nos perguntar se existe ou n\u00e3o uma especificidade do sonho nas crian\u00e7as \u2013, e depois, terminar com algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a \u00e9poca atual e o lugar dado ao sonho. Abordar o lugar e a fun\u00e7\u00e3o dos sonhos e pesadelos nas crian\u00e7as \u00e9 uma quest\u00e3o cl\u00ednica, \u00e9tica e pol\u00edtica, aspectos que se entrecruzam e que tentarei mostrar sua amarra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recordemos algumas considera\u00e7\u00f5es gerais sobre o sonho e sobre o pesadelo. Todos n\u00f3s lembramos que a tese freudiana relativa aos sonhos \u00e9 que eles s\u00e3o a estrada real de acesso ao inconsciente, na medida em que o desejo recalcado figura como realizado. O sonho, por outro lado, tem a fun\u00e7\u00e3o de preservar o sono, sendo, portanto, o guardi\u00e3o contra a emerg\u00eancia da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que nunca dorme. Isso significa que o sonho, como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, \u00e9 o resultado de um compromisso entre a realiza\u00e7\u00e3o de um desejo inconsciente e o desejo de dormir, entre a puls\u00e3o e a censura. O sonho \u00e9 uma <em>forma\u00e7\u00e3o de compromisso<\/em> que pode, assim, realizar o desejo de dois sistemas simultaneamente. A f\u00f3rmula final que Freud estabelece em <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em> integra o mecanismo de censura: \u201cO sonho \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o (disfar\u00e7ada) de um desejo (suprimido, reprimido)\u201d \u2013 tal \u00e9 a tese principal. A essa defini\u00e7\u00e3o foi acrescentado, em 1911, o desejo infantil: \u201cO desejo representado no sonho \u00e9 necessariamente infantil\u201d. No entanto, que o sonho chegue a um compromisso \u00e9, por si s\u00f3, um pouco suspeito, pois esperar um acordo entre o desejo e a censura s\u00f3 pode ser uma ilus\u00e3o, uma condi\u00e7\u00e3o quase imposs\u00edvel; desde que se trata de um material inconsciente j\u00e1 recalcado, n\u00e3o h\u00e1 submiss\u00e3o total de um sistema para com o outro. A tese da \u201cconcilia\u00e7\u00e3o\u201d como coincid\u00eancia de desejos parece bastante fraca. O caminho do compromisso nem sempre significa concilia\u00e7\u00e3o. O desejo recalcado n\u00e3o est\u00e1 sob o regime do desejo de dormir; esses desejos n\u00e3o dormem, n\u00e3o desejam dormir. Nem tudo no sonho \u00e9 devaneio (<em>songe<\/em>)&#8230; a interrup\u00e7\u00e3o do sono \u00e9 sempre um risco, uma defesa que substitui uma desfigura\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel e um compromisso defeituoso.<\/p>\n<p>A for\u00e7a pulsional n\u00e3o se enquadra no regime do desejo de dormir, de modo que a interrup\u00e7\u00e3o do sono ocorre diante do indom\u00e1vel da puls\u00e3o, da ang\u00fastia como prote\u00e7\u00e3o e limite contra o horror. Sabemos desde Freud que a produ\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia que p\u00f5e fim ao sono substitui a censura, que n\u00e3o opera uma deforma\u00e7\u00e3o correta do desejo. Para Freud, a ang\u00fastia que interrompe o sono n\u00e3o tem o estatuto de sinal de alarme, mas de \u00edndice do horror da verdade. Lacan segue Freud quando diz que \u201cum sonho acorda exatamente no momento em que poderia liberar sua verdade\u201d, mas completa: \u201cde modo que n\u00e3o se acorda sen\u00e3o para continuar sonhando \u2013 para sonhar no real, ou para ser mais preciso, na realidade\u201d. Nesse sentido, essa verdade, que em Freud se refere ao recalque, mostra claramente que o sujeito est\u00e1 apenas se defendendo diante de uma poss\u00edvel irrup\u00e7\u00e3o de um real dentro do sonho. O despertar interv\u00e9m, portanto, para que continuemos a sonhar, de olhos abertos.<\/p>\n<p>A partir de 1915, a perspectiva pulsional na conceitua\u00e7\u00e3o do sonho estar\u00e1 cada vez mais presente: a exig\u00eancia pulsional no sonho desvela o aspecto de \u201cdefesa\u201d do sonhar, mais especificamente da realiza\u00e7\u00e3o do desejo. Em <em>Esbo\u00e7o de Psican\u00e1lise<\/em>, Freud acentua a fun\u00e7\u00e3o do sonho como uma defesa contra a puls\u00e3o. Ele diz: \u201cO trabalho do sonho tem como fun\u00e7\u00e3o essencial substituir uma exig\u00eancia (pulsional) por uma realiza\u00e7\u00e3o de desejo\u201d.<\/p>\n<p>Parece-me fundamental lembrar isto porque o pr\u00f3prio Freud, \u00e0 medida que progredia, encontrava obst\u00e1culos na tese do sonho como realiza\u00e7\u00e3o de um desejo: primeiro, a interrup\u00e7\u00e3o do sono pela ang\u00fastia como fracasso de um compromisso; depois, v\u00eam os sonhos traum\u00e1ticos que refletem um ultrapassamento do princ\u00edpio do prazer, eles constituem uma exce\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria da realiza\u00e7\u00e3o de desejo. O que ent\u00e3o entra em jogo para Freud \u00e9 uma nova considera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o sonho e a puls\u00e3o, porque a for\u00e7a pulsional \u00e9 real, o que o leva a redefinir o sonho como uma \u201ctentativa\u201d de realiza\u00e7\u00e3o do desejo, e \u00e9 preciso insistir na palavra tentativa, \u201co sonho <em>tenta<\/em> figurar uma realiza\u00e7\u00e3o de desejo\u201d. Tentativa que pode falhar na medida em que a puls\u00e3o espec\u00edfica da fixa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica \u00e9 ativada.<\/p>\n<p>O sonho traum\u00e1tico, portanto, n\u00e3o est\u00e1 reservado aos traumatizados pela guerra ou por acidentes graves. Essas formas graves de trauma abriram as portas para Freud reconsiderar o conjunto de sua teoria: compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, puls\u00e3o de morte, al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, mas para todos. Freud dizia que a fixa\u00e7\u00e3o inconsciente de um traumatismo constitui o maior obst\u00e1culo \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do sonho porque as experi\u00eancias infantis t\u00eam um car\u00e1ter traumatizante e que permanece demonstrado por esta falha estrutural e espec\u00edfica do trabalho do sonho. Nem tudo pode ser disfar\u00e7ado, desfigurado, encoberto. A substitui\u00e7\u00e3o significativa enquadrada por uma imagem sensorial, dizia Freud, nem sempre consegue velar a fixa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica.<\/p>\n<p>Lacan teve uma defini\u00e7\u00e3o curta e justa a esse respeito durante o Semin\u00e1rio 23: ele definia todo sonho como um \u201cpesadelo temperado\u201d. Cada sonho \u00e9 um pesadelo temperado, porque \u00e9 o tratamento de um real, ele se constr\u00f3i em torno de um imposs\u00edvel de dizer. Da\u00ed o car\u00e1ter essencial para salvaguardarmos este espa\u00e7o do sonho: ele n\u00e3o \u00e9 apenas um semblante, um misto falso de imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico, pelo contr\u00e1rio! Ele \u00e9 fundamental para n\u00f3s porque \u00e9 neste espa\u00e7o do sonho que surgir\u00e1 um real como acontecimento.<\/p>\n<p>\u00c9 a nova perspectiva que nos leva a repensar uma nova forma de articular o desejo, e o que aparece como incompat\u00edvel, a saber, o gozo, porque \u201cO sonho torna-se uma nova introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o desejo-gozo\u201d porque, deste ponto de vista, ele diz: \u201cO gozo n\u00e3o \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o do desejo. Ele \u00e9 o que n\u00e3o pode ser articulado nos caminhos do desejo\u201d. \u00c9 precisamente por isso que o sonho e sua realiza\u00e7\u00e3o de desejo mascaram, como Freud j\u00e1 havia percebido, mas tamb\u00e9m \u00e9 o espa\u00e7o para a emerg\u00eancia de um fora de sentido.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o de um grande n\u00famero de casos que ouviremos durante esta jornada de trabalho. \u00c9 precisamente isso que Daniel Roy diz no seu argumento \u201cSonhos e fantasmas na crian\u00e7a\u201d: \u201cH\u00e1, portanto, dois caminhos para o trabalho do sonho que se abrem a partir do material significante: o do desejo, pelo qual a realidade \u00e9 constru\u00edda, e aquele que cava o buraco por onde toda realidade escapa em dire\u00e7\u00e3o a um imposs\u00edvel de representar.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0s vezes \u00e9 o buraco sem as fic\u00e7\u00f5es, a irrup\u00e7\u00e3o brutal. Mas n\u00e3o devemos compreender demasiado rapidamente. O sonho e a realidade material n\u00e3o s\u00e3o sistematicamente distinguidos na crian\u00e7a. Freud j\u00e1 indicava, no caso do Homem dos Lobos, que, depois do despertar, as imagens do sonho dos lobos na \u00e1rvore eram t\u00e3o v\u00edvidas que o paciente relatou n\u00e3o ter ficado imediatamente convencido do car\u00e1ter on\u00edrico dessa experi\u00eancia. Durante uma supervis\u00e3o, uma jovem colega me relatou a frase de um menino insone que h\u00e1 meses reclamava de sofrer de pesadelos, mas sem conseguir entregar seu conte\u00fado. Essa jovem crian\u00e7a insone um dia lhe disse: \u201cSabe, eu n\u00e3o consigo dormir porque eu n\u00e3o paro de ter pesadelos\u00bb. Ela retruca: \u00abMas como voc\u00ea tem pesadelos, j\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o dorme?\u201d. O que ele chamava de pesadelos eram frases alucinat\u00f3rias que o invadiam na hora de dormir.<\/p>\n<p>Outro pequeno exemplo. Recentemente, Philippe, uma crian\u00e7a de oito anos, foi trazida por seus pais ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o deles. Desde essa separa\u00e7\u00e3o violenta e cheia de brigas, os pais notaram um tique nervoso da crian\u00e7a, no pesco\u00e7o, e uma agita\u00e7\u00e3o escolar. Por sua vez, Philippe me explica que n\u00e3o consegue entender como funciona a guarda compartilhada, que nunca entende onde dorme, qual semana \u00e9 com o pai, qual \u00e9 com a m\u00e3e. Na escola, \u00e9 verdade, ele leva uma bronca da professora porque n\u00e3o para de se mexer, mas a culpa n\u00e3o \u00e9 dele: \u00e9 que ele n\u00e3o sabe onde colocar as \u201ctesouras\u201d e nunca encontra o lugar certo para elas. Mas acima de tudo ele est\u00e1 angustiado, sua m\u00e3e tem uma raiva imensa de seu pai, que ele ama muito, uma identifica\u00e7\u00e3o viril que lhe \u00e9 fundamental. N\u00e3o, ele n\u00e3o tem ideia do motivo da separa\u00e7\u00e3o dos pais, ele n\u00e3o sabe de nada. Mas a raiva da m\u00e3e \u00e9 permanente; ela fala muito mal do pai. A m\u00e3e me confessa durante uma entrevista que, na verdade, ela falava demais com o filho, falava mal do pai, mas que, apesar disso, ela n\u00e3o contou tudo para ele! Ela me contou: as grandes brigas antes da separa\u00e7\u00e3o diziam respeito \u00e0 descoberta de uma \u201cadi\u00e7\u00e3o\u201d do pai de Philippe \u00e0 pornografia. Ela havia fu\u00e7ado muito nas coisas dele e obrigou este \u00faltimo a confessar. Para ela, foi uma engana\u00e7\u00e3o que n\u00e3o merecia nenhuma indulg\u00eancia. Ap\u00f3s v\u00e1rios meses de consultas, de repente, Philippe me confessa que tinha pesadelos repetitivos, sempre o mesmo. Ele est\u00e1 dentro de um videogame de que gosta muito. Ele adora esse jogo, j\u00e1 falou tantas vezes sobre isso comigo \u2013 \u00e9 um verdadeiro objeto de desejo. Mas em seu sonho, ele caminha dentro desse jogo. De repente, encontra um dos personagens, um gatinho, mas no sonho o gato \u00e9 diferente: ele tem olhos vermelhos, de um vermelho brilhante. Ele \u00e9 assustador. Ele acorda sobressaltado. O objeto de gozo se manifesta na forma da efra\u00e7\u00e3o; a pregn\u00e2ncia do objeto de gozo do pai e o olhar intrusivo da m\u00e3e fazem irrup\u00e7\u00e3o no seio das fic\u00e7\u00f5es. Este exemplo mostra os dois caminhos do sonho que \u00e0s vezes podem se encontrar em oposi\u00e7\u00e3o: o do desejo e o do gozo.<\/p>\n<p>\u00c9 no espa\u00e7o dos sonhos que a crian\u00e7a evoca aquilo que ela n\u00e3o consegue representar ou se representar por si mesma, o enigma por vezes indecifr\u00e1vel que ela \u00e9 para o desejo do Outro. N\u00e3o esque\u00e7amos que na Idade M\u00e9dia os \u00edncubos e os s\u00facubos eram seres diab\u00f3licos que visitavam aquele que dormia e oprimiam seu peito. Lacan refere-se a isso em seu Semin\u00e1rio 10, <em>A ang\u00fastia<\/em>, para recordar o car\u00e1ter gozoso, mas sobretudo enigm\u00e1tico, desses seres m\u00edsticos.<\/p>\n<p>Freud notou em sua pr\u00e1tica a import\u00e2ncia que os contos populares tinham na produ\u00e7\u00e3o on\u00edrica. Podemos ainda evocar o sonho do Homem dos Lobos em que uma parte significativa do conte\u00fado \u00e9 sobredeterminada por \u201cChapeuzinho Vermelho\u201d e pelo conto \u201cO lobo e os sete cabritinhos\u201d. Num grande n\u00famero de casos, Freud observa como a \u201clembran\u00e7a de suas hist\u00f3rias favoritas tomou o lugar das pr\u00f3prias recorda\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia; eles converteram as hist\u00f3rias em lembran\u00e7as encobridoras\u201d. Por\u00e9m, para Freud, elas t\u00eam o mesmo estatuto: \u201csem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com a precis\u00e3o\u00a0hist\u00f3rica\u201d, ele afirma. As hist\u00f3rias e os contos folcl\u00f3ricos s\u00e3o uma <em>fachada<\/em>, mas tela ou fachada nunca s\u00e3o falsos. Pelo contr\u00e1rio, para Freud, o valor fundamental dessas formas \u00e9picas \u00e9 que sempre deixam transparecer o que elas velam, permitem-nos aproximar-nos de uma <em>verdade<\/em> indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses, durante uma conversa cl\u00ednica em Barcelona com colegas da ELP, uma colega que trabalha com equipes escolares em creches (crian\u00e7as entre 3 e 5 anos) contou-nos que os funcion\u00e1rios das escolas para crian\u00e7as muito pequenas recebem documentos oficiais pedindo-lhes que fiquem muito atentos a quaisquer palavras ou escritos que possam causar danos psicol\u00f3gicos \u00e0s crian\u00e7as. Por exemplo, \u00e9 necess\u00e1rio suprimir todos os livros que apresentem estere\u00f3tipos sexistas, como mulheres com vestidos; ou ainda passagens chocantes ou violentas, como lobos que comem av\u00f3s. Esse documento oficial do governo dava instru\u00e7\u00f5es concretas e precisas sobre como falar com as crian\u00e7as, quais m\u00fasicas podem ser cantadas e como mudar os personagens de determinados contos. Por fim, ser sens\u00edvel para n\u00e3o perpetuar e reproduzir estere\u00f3tipos raciais e de g\u00eanero parece-me fundamental. Mas tentar eliminar da literatura qualquer coisa que possa ofender as sensibilidades parece-me question\u00e1vel. H\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o da literatura a um espa\u00e7o onde se formam comportamentos e valores, uma redu\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica. A literatura \u00e9 muito mais do que isso. A literatura n\u00e3o tem apenas a fun\u00e7\u00e3o de nos ensinar a conviver, ela n\u00e3o tem apenas uma fun\u00e7\u00e3o educativa e moralizadora. A literatura, como observou Freud, alimenta nossos sonhos; ela \u00e9, como todas as fic\u00e7\u00f5es, uma ferramenta de sintomatiza\u00e7\u00e3o, um lugar onde o sujeito pode encontrar significantes e imagens para tratar um real. Os discursos atuais sustentam o bem-estar emocional, buscam higienizar tudo e proteger as crian\u00e7as de personagens maldosos e violentos com a v\u00e3 ilus\u00e3o de que isso poder\u00e1 erradicar a puls\u00e3o de morte que habita cada um de n\u00f3s. Pelo contr\u00e1rio, por causa desse normativismo, as crian\u00e7as n\u00e3o ter\u00e3o mais onde encontrar as fic\u00e7\u00f5es que poderiam tratar os gozos que agitam seus corpos&#8230; Mas o diabo que \u00e9 jogado porta afora acaba entrando pela janela, como vemos num aumento espetacular da viol\u00eancia escolar na nossa \u00e9poca. Daniel Roy lembrou-nos: \u00e9 preciso \u201cforjar as ferramentas para nos opor ao despejo das crian\u00e7as do mundo dos semblantes\u201d \u2013 aqui a cl\u00ednica se une \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 \u00e9tica, e mostra a necessidade urgente, hoje, de defender o espa\u00e7o do sonho. Defender o sonho como um espa\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o, de narra\u00e7\u00e3o, de fic\u00e7\u00e3o, mas que se faz eco do intrat\u00e1vel que ela trata, onde as palavras se tecem em torno de um imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Acho que precisamos permanecer vigilantes. Alguns discursos hoje em dia n\u00e3o gostam que fa\u00e7amos os sonhos falarem. Esses discursos reduzem o sonho a n\u00e3o ser nada mais do que uma simples experi\u00eancia de consci\u00eancia modificada ou de descarga cerebral. O discurso capitalista n\u00e3o gosta de sonhos, ele prefere o sono: vamos dormir bem! Vamos descarregar esses sonhos, esse lixo, para sermos bem eficazes no dia seguinte! Na l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o\/consumo, o sonho n\u00e3o tem seu lugar. Voc\u00eas sabem que [Ailton] Krenak nos convida a voltar aos sonhos. O sonho \u00e9 um ato de resist\u00eancia pol\u00edtica. No espa\u00e7o do sonho s\u00e3o criados novos sentidos que tratam o real, \u00e9 um lugar de inven\u00e7\u00e3o e de poesia. Revalorizar os sonhos significa ir contra, como diz Krenak, o desencantamento do mundo, um mundo que desvaloriza os espa\u00e7os de interpreta\u00e7\u00e3o. Voltar ao sonho \u00e9 resistir e lutar para manter a margem de interpreta\u00e7\u00e3o; sem essas margens e esses espa\u00e7os de interpreta\u00e7\u00e3o, corremos o risco de ir em dire\u00e7\u00e3o ao pior. O sonho \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o subjetiva que nos surpreende, que nos interroga, que nos angustia, que nos divide e que n\u00e3o nos permite acreditar que somos id\u00eanticos a n\u00f3s mesmos. Manter o espa\u00e7o dos sonhos \u00e9 proteger o espa\u00e7o do desejo e do gozo para continuarmos a nos tornar um mist\u00e9rio para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Cristina Drummond<br \/>\nRevis\u00e3o: Alessandra Thomaz Rocha<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Carolina Koretzky Gostaria de compartilhar com voc\u00eas alguns elementos te\u00f3ricos relativos aos sonhos e pesadelos nas crian\u00e7as \u2013 podemos at\u00e9 nos perguntar se existe ou n\u00e3o uma especificidade do sonho nas crian\u00e7as \u2013, e depois, terminar com algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a \u00e9poca atual e o lugar dado ao sonho. 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