Carolina Koretzky Gostaria de compartilhar com vocês alguns elementos teóricos relativos aos sonhos e pesadelos…
As crianças e seus objetos
Escrito por Daniel Roy
Tomado ao pé da letra, o tema “As crianças e seus objetos” destaca a dimensão do múltiplo – um convite a não fazer uma essência da “criança”.
Aqui há duas multiplicidades – de um lado “as crianças”, do outro “os objetos” – que estão ligadas por este determinante possessivo “seus”. As crianças estão aí, de alguma forma, determinadas pelos objetos que elas tornam seus. Quanto aos objetos, somente as crianças poderão nos ensinar o que eles são e quais são os usos que fazem deles e para quais funções. E o vínculo deles, trata-se de uma relação de posse? Temos a oportunidade de interrogar essa relação com base no que as crianças nos contam sobre ela.
Esses dois conjuntos, “crianças” e “objetos”, devem, portanto, ser entendidos como semblantes, tal como Lacan os define, como significantes que são regulados uns em relação aos outros. É por isso que, nos servindo dos termos destacados por Jacques-Alain Miller, nos beneficiaremos ao considerar crianças e objetos como parceiros no jogo da vida.
Os “pequenos objetos [menus objets]”[1]
A expressão “menus objets” (pequenos objetos) surge diversas vezes no ensino de Lacan, expressão bem formada para enfatizar que as crianças colocam os objetos em seus menus e para sugerir que, ocasionalmente, certos objetos consomem, inclusive as crianças são consumidas. Esta é a abordagem dos objetos escolhida para esta apresentação.
De fato, no encontro – em uma cura analítica, em uma psicoterapia, nas instituições, na creche, no hospital, na escola – as crianças se apresentam com seus menus objetos ou pegam os menus objetos que lhes são disponibilizados, ou precisamente aqueles que não estão à sua disposição!
A partir do tratamento, diríamos que as crianças se analisam com seus objetos. É de fato nesse enquadre que elas nos ensinam de que matéria eles são feitos, e esse saber será muito útil em outras instituições, bem como na vida cotidiana. Porque a presença desses objetos não é, em nenhum caso, uma questão de técnica analítica aplicada às crianças: trata-se de acolher os objetos parceiros da criança. Claro que eles nem sempre aparecem; então, temos que procurá-los: eles estão em algum lugar, na sala de espera, em casa, na rua ou nos novos espaços criados pela ciência, objetos fisicamente separados da criança, mas intimamente ligados a ela.
Objetos tradicionais da demanda ou novos objetos produtos da tecnologia, nós os reconhecemos facilmente no cotidiano das crianças: na família, são estes os objetos dos quais, em certas ocasiões, elas estarão privadas, sob a forma de ameaça ou na realidade; na escola, no ensino fundamental, no ensino médio, são aqueles que serão confiscados. Aqui estão os objetos preciosos da criança sequestrados em má companhia, aquela do “castigo”, que agora ostentarão a marca da infâmia.
“O viés das coisas”[2]
Isto nos encoraja, em nossa prática, a escolher o “viés das coisas” [1], como Francis Ponge destaca em sua coletânea de poemas epônima, ou seja, a considerar os objetos em sua materialidade e no seu “motérialisme” [2]. O poeta faz escutar dois modos da existência das “coisas”: objetos do mundo sensível e ressonâncias da língua. O viés do poeta pelas coisas é da mesma ordem que o viés das crianças pelos objetos que veem ao seu encontro.
Neste movimento onde acolhemos as crianças com seus objetos, descobrimos que há, realmente, um viés dos próprios objetos, que eles são parte disso e que desempenham seu papel. E isto de duas maneiras: pelo golpe que recebem de sua escolha por esta criança – na pura contingência do instantâneo do momento em que isso acontece – e, também, pela marca que recebem de sua inscrição como significantes na atualidade do discurso. Este segundo tempo, de subjetivação, responde à temporalidade do a posteriori, na tomada de posição do sujeito em relação ao tempo precedente. Na falta deste tempo 2, o objeto persevera em seu ser de gozo sem o recurso de seu ser de semblante, contaminando até mesmo seu ser de semblante que lhe retorna alucinado e persecutório – iremos nos referir ao caso Robert, a criança lobo [3].
É, de fato, como semblantes que os objetos são manipuláveis – trocáveis, roubados, emprestados ou dados, perdidos ou encontrados. Eles possuem muitas outras qualidades não psicológicas que os tornam mais disponíveis do que as pessoas que rodeiam a criança, mais confiáveis e mais estáveis do que os seres falantes. Os objetos suportam muito mais coisas, eles podem ser destruídos sem qualquer medida de retaliação da parte deles.
Os objetos também fornecem indicações precisas sobre as “teorias do Outro” elaboradas pelo sujeito.
As crianças têm uma relação de saber-fazer com os objetos, o que proporciona uma certa satisfação. Se a construção de Lego desaba, só resta chorar ou explodir tudo! É esperado dos objetos, de fato, uma forma especial de garantia, uma garantia gratuita, sem contrato ou credo prévio. A única promessa – mas que promessa! – é que isso aguente firme, na medida em que a própria criança colocou ali algo de seu.
Os objetos inanimados, sem dúvida, têm uma alma, e até mesmo pequenos amontoados de almas, como os psicanalistas aprenderam com as crianças.
Freud e os primeiros psicanalistas descobriram os menus objetos das crianças
Freud
Isso cai bem, o primeiro objeto que cai sob a pena de Freud é um objeto novo, exatamente descoberto por um pediatra, um objeto de satisfação capaz de substituir o prazer da amamentação, um objeto que a criança coloca no seu menu! Este objeto é chamado de “o sugador” (das Ludeln), um objeto criado pela criança a serviço dessa satisfação obtida como derivação da amamentação. A língua, o polegar, a chupeta, não são substitutos do seio, são objetos a serviço da satisfação substitutiva: a primeira descoberta de Freud a respeito dos objetos da criança, descoberta fundadora da sexualidade infantil. Observemos que esta não é uma substituição que tem como resultado uma soma zero. No começo há uma perda – “a busca de um prazer – já vivido…” –, depois um modo de recuperação da perda que não a anula – “… e agora lembrado” [4].
Uma segunda descoberta de Freud – que esteve em destaque na preparação da 8ª Jornada do Instituto Psicanalítico da Criança – é o famoso jogo de carretel de seu neto [5]. Recordemos aqui que este objeto assume um valor particular para a criança, por um lado, pela sua inscrição na dimensão da repetição para além do princípio do prazer e, por outro lado, pelo seu poder de fazer surgir um novo espaço através da voz da criança (Fort-Da) e através do seu olhar (fazer desaparecer e aparecer). Este é o sentido do comentário de Lacan: “É com seu objeto que a criança salta as fronteiras de seu domínio transformado em poço e que começa a encantação.” [6] O jogo do carretel aqui funciona para se distanciar parcialmente da demanda ao Outro e do Outro, bem como para dar um lugar ao seu desejo através dos objetos pulsionais.
Uma terceira descoberta diz respeito ao objeto como fetiche, que faz mancha no sentido de que é um objeto qualquer, retirado do corpo do outro ou do próprio corpo, suscetível de estar contaminado pela satisfação, seguindo estranhas vias de condução, sublinhadas por Freud, aquelas de ressonâncias linguísticas [7].
Melanie Klein
Para Melanie Klein, dois princípios regem a vida psíquica das crianças em sua relação com os objetos: a inveja – só há objeto incorporado – e a destruição – todo objeto é suscetível de ser destruído. É muito interessante reler o comentário de Lacan sobre a apresentação do caso Dick por Melanie Klein, em seu Seminário 1, Os escritos técnicos de Freud. Na verdade, ele indica ali que é o processo de destruição aplicado aos objetos que vai abrir para a criança o mundo humano, pela via do “interesse pelos objetos enquanto distintos” [8]. Esta é uma observação fundamental na medida em que podemos nos referir às descobertas de Freud: substituição, condensação, repetição, contaminação pela língua são as vias de condução do gozo que se abrem à descoberta de “um mundo infinito quanto aos objetos” [9]. Mas não sem o assentimento do sujeito, uma Bejahung.
Winnicott
É impossível não nos determos com Lacan na descoberta de Winnicott do que ele chamou “o objeto transicional”, do qual ele diz que “o importante não é tanto seu valor simbólico, mas sua realidade (actuality)” [10]. A característica essencial desse objeto é que ele é acordado que não será perguntado à criança se ela o criou ou o encontrou. Lacan comenta: “Todos os objetos dos jogos da criança são objetos transicionais. Os brinquedos, falando propriamente, a criança não precisa que lhe sejam dados, já que os cria a partir de tudo o que lhe cai nas mãos. São objetos transicionais. A propósito destes, não é preciso perguntar se são mais subjetivos ou mais objetivos – eles são de outra natureza.” [11]. Lacan vai se interessar por esse novo espaço que os objetos transicionais criam, um espaço cuja verdadeira força motriz é “a falta do objeto”.
O objeto transicional deu, em um momento particular de nossa cultura, o modelo de objetos domesticados e a imagem de um gozo apaziguado, todos os objetos considerados como possivelmente reparadores.
Na clínica, um outro objeto veio contrariar essa tendência: é o objeto autístico, objeto tirânico, que parece devorar a criança, expulsá-la do mundo humano, vociferar com ela e vigiá-la permanentemente.
Com Lacan, descoberta de um novo objeto
Desde a sua invenção por Lacan, o objeto a recolhe e condensa as qualidades e valores dos objetos, tais como isolados por Freud e seus alunos. Vamos seguir aqui o fio condutor dos “menus objetos”.
Em 1958, em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, a respeito da instauração da transferência, Lacan indica: “todos sabem, e os psicanalistas de crianças em primeiro lugar, que é preciso um bocado de pequenos [menu] objetos para manter uma relação com a criança” [12]. A função deles é a de abertura da dimensão da demanda. A materialidade dos menus objetos é colocada a serviço do valor significante deles. Mas, para a criança que entra na fala, é sob a forma de um nome próprio que ela acolhe cada novo objeto em sua lalangue, sem maior consideração pela pronúncia correta ou atribuição comum. Como Lacan enfatizou anos depois: a materialidade dos objetos não pode ser concebida, a partir da experiência analítica, sem seu moterialismo.
Em 1967, em O ato psicanalítico, Lacan enfatiza “as funções desse pequeno [menu] objeto cujo estatuto Winnicott articula para nós” [13], pois escava o lugar que aguarda o sujeito, não o da nostalgia ou da inveja de um gozo perdido para sempre, mas o lugar que sempre permaneceu intacto e atual do Lust Ich (“a mim a regra do meu prazer”): neste Lust Ich que é verdadeiramente um brincalhão sagrado, o sujeito terá que se reconhecer! É o objeto da angústia que mostra aí o caminho a seguir: “já temos para nos guiar o objeto a” [14].
Poucos anos depois, em maio de 1970, durante seu seminário O avesso da psicanálise, Lacan usa essa expressão “menus objetos” para designar a presença de novos objetos, que vêm criar e ocupar um espaço até então desconhecido, porque inexistente, “a aletosfera”: “E quanto aos pequenos [menus] objetos a que vão encontrar ao sair, no pavimento de todas as esquinas, atrás de todas as vitrines, na proliferação desses objetos feitos para causar o desejo de vocês, na medida em que agora é a ciência que o governa, pensem neles como latusas.” [15]
A criação por Lacan desses dois neologismos – formados a partir do grego alèthéia, a verdade – nos permite nomear esses novos objetos massivamente investidos pelas crianças do século, e de localizá-los num espaço onde são avaliados pelo padrão de uma verdade puramente formal – isso funciona ou isso não funciona –, o que lhes confere uma consistência substancial, uma “autoridade”, especialmente poderosa. O que Lacan designa pelo termo mais-de-gozar, termo paradoxal para nomear esse dejeto, esse rejeito, esse resto, esse caroço da captura num discurso, é justamente isso que opera realmente em nossos gadgets, nossos objetos conectados, na medida em que eles estão conectados a esse resto de gozo.
A seguir
Escondidos como estavam pelos bichinhos de pelúcia e naninhas, vemos, no a posteriori dos avanços de Lacan, se desenhar os objetos das crianças tal que neles mesmos o discurso os molda para estarem ao alcance das crianças. Nessa báscula, nós os vemos emergir em sua realidade efetiva, como objeto a em sua Wirklichkeit de gozo e de semblante. Suas funções ficam assim esclarecidas:
- O objeto a separador: a serviço da demanda, os objetos colocam as crianças em contato com o lugar do Outro, espaço simbólico onde o sujeito encontra seu lugar como falta. Objetos não mais reparadores, eles podem então atuar como objetos separadores para se destacarem da dependência da demanda do Outro e ao Outro.
- O objeto a como agalma e como peça solta do corpo, objeto parcial: ele funciona ali como um objeto condensador para o gozo despojado do corpo [16]; a este respeito os objetos dão consistência ao espaço do Outro como corpo, onde encontram lugar como “dejetos exóticos”. Mas agora tornados objetos “fora do corpo”, eles oferecem uma nova perspectiva sobre o objeto, o de uma falta incluída em cada objeto de interesse, de gosto, de valor, a saber o que não se pode dizer e que, neste lugar, causa a angústia [17].
- O objeto a “núcleo elaborável do gozo [18]”: os objetos também dão existência e autoridade ao objeto gozo [19], que abre um acesso direto ao Lust Ich, ao mais-de-gozar, abalando a defesa dos semblantes do Outro da linguagem e do Outro do corpo, elaborados diante do real. As crianças de hoje são as exploradoras deste novo espaço, destas novas redes, às vezes por sua conta e risco. Ao fazê-lo, elas nos ensinam que a relação com seus objetos é fundamentalmente sintomática, sujeita às leis formais ligadas ao encontro contingente do gozo com a língua: substituição e condensação, contaminação e destruição. Da consideração dessas leis e da posição do sujeito em relação a elas, depende nossa ação diante de cada criança que encontramos com os seus objetos-parceiros.
Tradução: Alessandra Thomaz Rocha
Revisão: Cristina Drummond

