ISSN 2178-499X

O sexual e a zona de fratura: perspectivas para uma prática com crianças e seus pais

by cien_digital in Cien Digital #25, LABOR|a|tórios

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Laboratório Mães e seus filhos – CIEN-MG – Cristina Marcos, Juliana Motta, Larric Johnny Malacarne, Mariana Vasconcelos dos Santos, Mateus Mourão e Paula Pazzini Salles

Light and squares abstract art. Photo by Matthew Henry from Burst

Provoca surpresa o quanto a advertência feita por Lacan em 1953 permanece atual, convocando analistas de todo o mundo a se colocarem a trabalho num esforço coletivo de operar transformações potentes na clínica para acompanhar as mudanças na subjetividade ao longo do tempo. Vale retornar ao texto lacaniano para sondar a força de suas palavras: “deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”[1].

Imbuído neste movimento, Daniel Roy, em seu texto “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”[2], nos transmite, antes de tudo, um convite. Um convite que foi feito a ele próprio por Jacques-Alain Miller e que tomamos também como um encorajamento para a nossa prática dos laboratórios do CIEN. O trabalho a ser feito, diz Daniel Roy, e aqui acrescentamos no CIEN, é o de produzir um saber de peso frente às desordens rápidas. Ele diz de desordens especialmente sensíveis no campo da infância e que testemunham a deriva ocorrida nos continentes de nossas convicções – os semblantes que nos mantêm – e de nossos hábitos – os gozos que nos convêm –, deriva que produz linhas de falha e zonas de fratura. A diferença sexual é o nome dado a uma dessas zonas.

Como podemos entender a diferença sexual enquanto fratura? Trata-se de uma fratura nos semblantes, fratura no real produzida pelo encadeamento discursivo dos semblantes, ou ainda pela deriva contemporânea desses últimos? Posto que a inexistência da relação sexual é uma condição com a qual o ser falante deve se haver desde que é habitado pela linguagem, o que disso muda com as desordens rápidas do contemporâneo?

Este trabalho é fruto de elaborações do Laboratório Mães e seus filhos construído a partir da aceitação ao convite feito por Daniel Roy, no sentido de podermos nos ocupar de tais questões. Para isso, voltamos nossa atenção especialmente ao campo onde a diferença sexual, por ele nomeada enquanto zona de fratura, testemunha a “deriva ocorrida nos continentes de nossas convicções”[3]. Dessa forma, retomando a metáfora do autor e extrapolando seu uso, a força dos questionamentos colocados pode ser medida pelos efeitos que apresentou no próprio fazer de nosso laboratório – ou pelo abalo sofrido nos continentes de nossas convicções. Inseridos no contexto das crises psiquiátricas que chegam nas instituições públicas de saúde mental para crianças e adolescentes, o contato com a provocação feita por Daniel Roy deu início a uma série de conversações no interior do laboratório sobre as zonas de fratura inerentes à própria maternidade, paternidade ou parentalidade. Dentre outros motivos, tais discussões participaram da decisão pela troca do nome anterior do laboratório de “Mães em crise” para “Mães e seus filhos”. A crise, ou a zona de fratura, é inerente e está colocada. Resta perguntar o que se pode fazer com isso. Desde então o método psicanalítico da conversação tem nos permitido construir um saber sobre a prática junto à clínica das mães e seus filhos, com desdobramentos dentro e fora de nosso laboratório.

Teoria

Uma das perspectivas trazidas por Daniel Roy em seu texto remete especialmente ao Seminário 18, quando, na segunda lição, Lacan[4] faz uma sutil diferenciação entre “identidade de gênero” e “identificação sexual”. Na identidade de gênero, o que está em jogo é, dizendo cruamente, uma distribuição populacional dos semblantes. Trata-se de performar “homem” ou “mulher”, fato que organiza a tentativa de distinguir os gêneros antes mesmo da fase fálica. Essa distribuição promove uma diferenciação, que Daniel Roy compara à designação de títulos de nobreza: nobres marqueses, distintos homens, eminentes mulheres.

Se Lacan diz que é uma diferença “com efeito, muito natural”, não é por acreditar, por exemplo, num determinismo da anatomia, mas sim porque o campo dos semblantes é o campo da natureza. Trata-se de um âmbito onde tudo é possível, pois uma vez que o parecer se equivale ao ser, identificar-se a um gênero é tão elementar, tão natural como dar um título de nobreza. Essa simplicidade encontra seu limite quando a proliferação de semblantes esbarra em algo de intransponível. Aí sim, estamos no campo do sexual. E o que nos leva até lá não é senão o discurso, a articulação discursiva dos semblantes.

Para desenvolver um pouco mais esse ponto, pode-se recorrer ao ensino de Miller na primeira lição de seu curso de 1991 sobre A Natureza dos Semblantes[5]. Miller delimita a separação radical entre o Real, de um lado, e os semblantes, do outro, e em seguida comenta que a natureza está do lado dos semblantes, como diz Lacan ao comentar das aparências que proliferam na natureza: o arco-íris, o trovão, mesmo o pênis, as exibições copulatórias dos animais etc. Para deixar essa correspondência mais clara, Miller recorda a natureza no sentido pré-moderno: aquela em que abundam sereias, monstros aquáticos, aquela sobre a qual Hamlet pôde comentar que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a filosofia”. É um mundo onde virtualmente tudo é possível.

O que muda então, no século XVII, é precisamente a introdução do discurso da ciência, ao qual devemos a subjetividade moderna e as condições de nascimento da psicanálise. A ciência intervém trazendo um novo modo de fazer com os semblantes, que é sua articulação em um discurso de tal modo que demonstre algo da dimensão do impossível, tocando assim o Real. A partir desse giro, observamos um empobrecimento radical da natureza.

Foto de Matthias Zomer no Pexels (pexels-matthias-zomer-68814)

Voltando ao texto de Roy, vemos que “a cada vez que o sujeito é convocado como homem ou mulher, esses semblantes têm eficácia real”[6]. Na medida do discurso, nem todos os semblantes se equivalem; nem todos têm essa eficácia que Miller articula como a passagem do nível do parecer/ser para o nível da existência. São alguns semblantes que logram “pescar” alguma coisa do Real, alguma coisa do gozo sexual exilado no impossível; eles escavam um buraco que aloja um pedaço desse gozo na forma de um mais-de-gozar.

Esses semblantes que têm uma “solidariedade” ao gozo sexual são precisamente o Falo e o Nome-do-Pai, aqueles a que Daniel Roy se refere quando diz “os semblantes que nos convêm”[7]. Eles são transmitidos pela tradição e nomeiam um modo de gozo, o gozo fálico, precisamente através de uma fratura, de uma incidência do significante no Real. Em outras palavras, a função fálica incide no Real, produzindo ali um corte, que é a inexistência da relação sexual. O sujeito sexuado é uma resposta do Real a esse corte, a escrita de um modo de gozo, masculino ou feminino, que fará suplência a essa zona de fratura. Logo, para a psicanálise o que está em cena não é um determinismo biológico, mas uma posição do sujeito frente a esses semelhantes, frente à linguagem. No caso do gozo do mais-de-gozar, ele tem um nome que geralmente é transmitido pela tradição paterna.

O que muda nisso tudo, quando pensamos no contemporâneo? Diversos autores do campo freudiano têm comentado sobre uma característica específica deste contexto que ganha várias nuances: queda do falocentrismo, descrença no grande Outro, forclusão generalizada, feminização do mundo, declínio da função paterna, depleção simbólica, etc. Nas derivas dessa época, aqueles semblantes escolhidos pela tradição se encontram menos assegurados, sua eficácia é menos garantida. E essas desordens, relembrando Daniel Roy, são especialmente sensíveis no campo da infância. Temos observado em conversações clínicas do Laboratório Mães e seus filhos, entretanto, que também são marcadamente sensíveis no campo da maternidade e da paternidade. Os semblantes que nomeiam o gozo precisam ser transmitidos; a identificação sexual depende de uma “imiscuição do adulto na criança”[8] que se dá sob a égide do Nome-do-Pai. Essa identificação depende certamente de “uma decisão insondável do ser”, mas também depende de algo da estrutura familiar. Não se trata exatamente do romance familiar, que é um semblante e pode assumir as formas mais diversas possíveis, mas sim do fato de que ser pai ou ser mãe é mais do que um parecer, não são semblantes quaisquer na medida em que transmitem um modo de gozo. Daí a angústia própria das funções paterna e materna, que não se cumprem sem uma certa visita do Real.

As observações que mencionamos acima têm lugar em instituições públicas de referência em saúde mental para crianças e adolescentes do Município de Belo Horizonte, nas quais alguns dos membros do laboratório Mães e seus filhos compunham o corpo clínico. Tais espaços concedem o privilégio do questionamento e produção de saber que parte de uma clínica vasta e complexa. Pais e avós, sejam eles biológicos ou adotivos, cuidadores do abrigo, ou até mesmo profissionais do sistema socioeducativo, estão e precisam estar sempre presentes. Pensando na dupla sujeito-analista, trata-se de uma clínica que não se faz sem a presença de um outro elemento, este que frequentemente, na ordem das intervenções, não é o terceiro. Os impasses e desafios oriundos desse trabalho foram levados mensalmente para conversações clínicas entre todos os membros do laboratório Mães e seus filhos, originando as questões que se desdobram ao longo deste texto.

Teoria e Prática

Na prática com crianças e adolescentes e seus pais/responsáveis, com frequência encontramos diante de nós algo da ordem de uma fratura exposta, verdadeiras urgências subjetivas. De fato, os Laboratórios do Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Criança (CIEN) nascem de um impasse, de uma questão que possa ligar seus participantes pela falta, criando um desejo de trabalho. Tem como orientação a “oferta da palavra”, um lugar em que a palavra possa circular e que, cada um com sua experiência, possa trazer para o trabalho uma miudeza, uma preciosidade que possa orientar seus participantes a cada vez, criando saídas para as questões e impasses que surgem no trabalho com esses sujeitos[9].

O laboratório “Mães e seus filhos” nasce com a pergunta: “De onde operar o encontro das mães com seus filhos, crianças e adolescentes, durante a visita hospitalar?” Essa pergunta se constituiu, em princípio, a partir dos casos clínicos construídos em uma instituição hospitalar manicomial. Naquele contexto, as mães estavam internadas em momento de crise psiquiátrica e o encontro com seus filhos se dava pelas visitas, ou pelo discurso das mães sobre seus filhos. A atividade atual ainda se sustenta pelo encontro, agora em rede de serviços de urgência substitutivos, voltados para crianças e adolescentes, e as conversações com os responsáveis pelos usuários do serviço que ocorrem dentro do espaço. Os elementos oriundos destas conversações são a mola propulsora daquelas que empreendemos em um segundo momento, entre os laboratoriantes, a fim de extrair algum saber que nos possa orientar a prática.

Em um destes encontros entre os profissionais de diferentes categorias que compõem o laboratório, temos como impulsionador o relato de um dos trabalhadores do serviço substitutivo de saúde mental. O conteúdo trata de uma família de cinco integrantes: o pai pastor, a mãe e três filhas. A perda do poder financeiro do genitor provoca um deslocamento de responsabilidade à mãe, que passa a exercer a função de trabalhadora sexual para sustentar a casa. Diante do insuportável do corpo, inicia uso devastador de substâncias para tratá-lo. Deixa as duas filhas mais novas na cidade do interior e parte para a capital com a filha mais velha, adolescente. Ambas circulam pelas cenas de uso, indiferenciadas, a adolescente em situação de exploração sexual constante para obtenção do objeto droga para consumo de ambas. Em seu discurso, a menina relata que a única forma de cessar o uso é se tornando uma mãe.

Este relato de um corpo adolescente indiferenciado causou à nossa discussão o resgate do termo utilizado por Marie-Hélène Brousse[10], que recorre à figura dos buracos negros – como descritos pelos astrofísicos no quadro da teoria da relatividade – para caracterizar os efeitos da diferença sexual sobre o discurso e a fala. Para a autora, assim como tudo o que entra no interior do buraco negro – toda a informação, toda a matéria –, é assimilada ao buraco negro, de modo que todos os objetos que caem nele se tornam inacessíveis, desde o momento em que se entra no campo da diferença sexual, tudo o que define a singularidade dos modos de gozar e das posições subjetivas torna-se inacessível.

Mesmo assim, é frente a buracos negros e zonas de fratura que nós, laboratoriantes, somos afinal convidados a colocar nosso desejo. Com Daniel Roy, recordamos que “nenhum código permite ao sujeito decifrar o que lhe acontece e, portanto, ele não sabe por que aquilo lhe acontece, nem o que quer dizer”[11]. Contudo, está a seu cargo fazer disso alguma coisa, e a escuta do psicanalista pode contribuir para fazer derivar novas possibilidades. Destacamos que é diante dessa falha que vão se construir as teorias sexuais infantis e se edificar as diversas identificações da infância, de maneira que cabe ao analista preservar essa singularidade e bordejar a novidade da invenção da criança quando ela se torna violenta demais.

No contexto das urgências psiquiátricas, contudo, frequentemente o praticante é convocado a dar uma resposta àquilo que se apresenta na instituição. Além disso, por vezes essa resposta precisa ser rápida, pois a demanda pode ser exorbitante. Em uma clínica tão complexa, falta espaço para pensar, verdadeiro impasse que foi tema de uma conversação ampliada entre diversos laboratórios do CIEN Minas em Agosto de 2020. Chegou-se ao significante “pausa” enquanto uma necessidade, no trabalho, ordenadora de uma possibilidade de incidência do discurso analítico nesta clínica: assim como o momento de ver, o momento de compreender tem seu lugar. Desse modo, as discussões em sala de plantão, antes de definir a “conduta” para o caso e as conversações entre psicanalistas, aparecem como possibilidades de operar essa função.

Em uma segunda conversação, outro laboratoriante traz o relato de  uma menina que aos 12 anos chega para acolhimento e, quando indagada sobre os motivos de estar ali, prontamente anuncia: “Minha mãe fala que eu tenho crises, tiques e TOCs”. Impressionado, o profissional reformula sua indagação e questiona “Sua mãe fala? E o que você me diz?” A isso, sem vacilar, a criança repete: “Minha mãe fala que piorei depois que eu conheci meu pai. Minha mãe fala que eu puxei isso que tenho do meu pai, ele tinha crises de nervoso…” O profissional, insiste: “Sua mãe fala… Sua mãe fala… Eu quero ouvir de você! O que você me conta?”. A menina dá risada, mas fica em silêncio e o discurso se interrompe. O profissional tenta uma vez mais fazer um corte e dizer para a menina que ela não é nem a mãe e nem o pai, mas sim ela própria, ao que ela responde, sem rodeios: “É, mas tem a genética”.

Ela parece se referir a uma transmissão de um modo peculiar de gozo, um modo de ser e sofrer naquela família e, portanto, também a transmissão de um modo de filiação. A menina nos convida a pensar em uma outra genética, uma genética discursiva. Mais uma vez o convite feito por Roy[12] nos coloca a trabalho. O autor nos fala de uma solidariedade de semblante entre as gerações, solidariedade que indica e encobre ao mesmo tempo o real do gozo em jogo e que confere consistência à estrutura familiar, sob suas modalidades tão diversas. Neste sentido, a família aparece tanto como o lugar onde se transmite a falha do sexual, como o lugar em que ela se mascara.

Em uma terceira situação, os pais de um menino de seis anos procuram o plantão de um serviço demandando um relatório psiquiátrico que diga que o filho não tem condições de ir à escola. Fazem isto porque o menino não quer ir pra escola de jeito nenhum. Quando são informados de que na avaliação da equipe o menino tinha plenas condições de frequentar a escola, ameaçam processar o serviço de saúde mental. Em nenhum momento passou pela cabeça dos pais daquele menino que eles poderiam – e talvez fosse importante – dizer a um menino de seis anos que ele precisa ir à escola. Seria este um exemplo das desordens ocorridas no campo da infância que testemunham a deriva ocorrida nos continentes de nossas convicções – os semblantes que nos mantêm – e de nossos hábitos – os gozos que nos convêm? Sobre isto, vale resgatar mais algumas provocações feitas por Daniel Roy:

Não seria nesse momento de crise que a psicanálise ou o praticante são solicitados por um desses distúrbios da criança que proliferam hoje sob denominações que são a roupagem dos experts? Nós não teríamos que fazer ressoar o valor da inibição, do sintoma ou da angústia para a criança? Estes diversos distúrbios não seriam com efeito respostas e defesas face a este momento de crise, em que se vê abalada a identificação fálica que sustentava até então esta criança? Devemos considerar que esta identificação fálica – sempre disponível no tempo da infância e atualmente privilegiada no seio da família e no discurso corrente – permite realmente a uma criança se manter à distância das questões da identificação sexual? Não deveríamos considerar de preferência a crise do falo como o momento fundamental em que se sintomatiza a vida da criança, em que ela começa a aprender o regime sinthomático de sua inscrição no discurso sexual?[13].

Ao permitir que as provocações do autor possam ressoar em nós e dar início a um trabalho que tenha no horizonte produzir um saber de peso, o laboratório Mães e seus filhos sustenta a convicção de que o campo da diferença sexual, essa fissura discursiva, zona de fratura por excelência, é anterior ao sofrimento das crianças e atravessa também seus pais e mães.

O que pode um laboratório do CIEN frente às desordens com crianças e seus pais no contemporâneo? A qual saber poderá ele recorrer quando se deparar com essas zonas de fratura em seu fazer? No texto “A criança e o saber”, Miller[14] nos apresenta o vetor que guia nossa ação: restituir o lugar do saber da criança, disso que as crianças – e por que não seus pais? – sabem. Para Daniel Roy[15]], àqueles que se propõem a atuar a partir da psicanálise cabe se informar sobre o que as crianças, meninas ou meninos, sabem da diferença sexual, do que querem ou não saber a respeito da mesma, e do que podem ou não podem saber. Para nós, do laboratório Mães e seus filhos, seguramente o que podemos – e esperamos saber fazer- é não recuar diante daquilo que é caótico e disruptivo.

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Considerações Finais

Em momento de concluir, uma hipótese se insinua. A diferença sexual sempre foi uma zona de fratura, já que a relação sexual é excluída para o ser falante. O que o desafio particular das desordens contemporâneas põe em jogo é uma certa falência dos semblantes que até então tinham eficácia em recobrir e organizar um gozo e uma identificação em torno dessa zona. A deriva das identificações e as irrupções do gozo parecem testemunhar algo que é da ordem de uma fratura exposta. Esse significante nos faz pensar, uma vez que nosso laboratório tem se ocupado da irrupção dessas fraturas nas urgências subjetivas na clínica de crianças e adolescentes e seus pais. De fato, Lacan[16] põe em primeiro plano os “casos de urgência” no seu Prefácio à edição inglesa do Seminário 11, e nos parece que a urgência com a qual estamos confrontados é aquela da invenção. Os sujeitos que buscam a clínica, e assim encontram as vias para as conversações que ocorrem nos serviços e que estimulam também as que ocorrem no laboratório, hoje em dia estão às voltas com a invenção de algo que dê conta de manusear os impactos destrutivos dessa fratura, talvez sem o recurso da tradição paterna, mas podendo a cada vez se servir dos efeitos das conversações.

Dessa forma, ao longo do trabalho do laboratório pôde-se coletar a partir das conversações alguns elementos para uma prática com Mães e seus filhos, os quais foram sendo discutidos até aqui. Em um momento inicial as conversações ocupavam-se de relatos trazidos por profissionais na escuta de crianças e adolescentes que chegavam aos serviços de urgências em saúde mental. Como fruto desses primeiros encontros, fomos identificando que também os pais e responsáveis apresentavam a demanda por um espaço de palavra para tratar justamente essa zona de fratura, cujos efeitos se observava nas crianças. Assim, desde o início de 2022 nosso laboratório tem sustentado um espaço de conversação para mães e pais das crianças e adolescentes atendidas nas instituições públicas de saúde mental de Belo Horizonte, sendo este um efeito de nossas próprias conversações.


[1] LACAN, J. (1998[1953]) “Função e Campo da Fala e da linguagem em Psicanálise”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 321.
[2] ROY, D. (2019) “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019, p. 6. Disponível em: https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[3] ROY, D. (2019). “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[4] LACAN, J. (1971) O Seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 30.
[5] MILLER, J. A (1991) De la naturaleza de los semblantes. Buenos Aires: Paidós Editora, 2002. p. 14.
[6] ROY, D. (2019) “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019, p. 10. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[7] ROY, D. (2019). “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov., 2019, p. 6. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[8] ROY, D. (2019). “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019, p. 10. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[9] MOTTA, J.; MARCOS, C. (2018). Mães em Crise. In: CIEN Digital, nº 22, nov., 2018, p.37. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Cien-Digital-22.pdf
[10] BROUSSE, M.-H. (2019) “O buraco negro da diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019,p. 18. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[11] ROY, D. (2019) “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019, p. 7. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[12] ROY, D. (2019). “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In:CIEN Digital, nº 23, nov, 2019, p.10. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[13] ROY, D. (2019). “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019, p. 11-12. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[14] MILLER, J.-A (2011). “A criança e o saber”. In: CIEN Digital, nº 11, jan., 2012, p. 8. Disponível em: https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2018/11/CIEN-Digital11.pdf
[15] ROY, D. (2019) “Quatro perspectivas sobre a diferença sexual”. Intervenção na 5ªJournnée d´étude de l´Institute psychanalytique de l´Enfant. In: CIEN Digital, nº 23, nov, 2019, p. 12. Disponível em https://ciendigital.com.br/wp-content/uploads/2019/11/Cien_Digital_23.pdf
[16] LACAN, J. (1976). “Prefácio à edição inglesa do seminário 11”. In: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Zahar, p. 567.

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