Carolina Koretzky Gostaria de compartilhar com vocês alguns elementos teóricos relativos aos sonhos e pesadelos…
Comer – A pulsão oral nas crianças
Argumento para a próxima Jornada de estudos do Instituto Psicanalítico da Criança do Campo Freudiano
Um tema a ser trabalhado, temperado e saboreado nas Redes da Infância do Campo Freudiano
Ligia Gorini
“O que é uma demanda oral?”[1] A demanda de ser alimentado, desde que é veiculada pela linguagem e dirigida a um outro, visa a algo além da simples satisfação de uma necessidade. Ela constitui o primeiro laço entre o bebê humano e o Outro. É na lacuna entre a necessidade e a demanda que o desejo vem se alojar.
A primeira descoberta de Freud a respeito dos objetos da criança relaciona-se à oralidade. Assim, o sugador (ludeln) “consiste em um contato de sucção com a boca […], que se repete ritmicamente, sendo a ingestão de alimento um fim excluído”[2]. Trata-se de um artifício criado pela criança para obter uma satisfação já experimentada, derivada dessa “união a mais radical”[3] com o Outro materno e a partir de então rememorada. A língua, os lábios, o dedo, a chupeta, não são substitutos do seio, mas objetos colocados a serviço de uma satisfação substitutiva.
Lacan evoca o sonho da pequena Anna Freud, no qual ela alucina as guloseimas que lhe haviam sido proibidas, para mostrar “que não há pura e simplesmente presentificação dos objetos de uma necessidade”[4], mas sim de objetos desejáveis. A menininha não estava particularmente com fome, mas sonhava com o que gostaria de comer.
O que dizer de uma criança que não para de comer, como um Gargântua, aquele pequeno glutão insaciável, alimentado por milhares de vacas? Como podemos interpretar os prazeres da boca – amamentar, sugar, mordiscar, saborear – como uma forma de explorar o mundo, desejá-lo ou tentar rejeitá-lo?
“Não há fantasma de devoração […] que não consideremos implicar […] uma inversão”[5], onde se manifesta o medo de ser devorado. Lacan insiste na reversibilidade da pulsão: comer, ser comido e se fazer comer constituem as três fases da pulsão oral.
Assim, João e Maria[6], atraídos por uma irresistível casa de doces que eles não hesitam em comer, são capturados por uma “bruxa comedora de crianças”[7], mas acabam por inverter a situação, empurrando-a para dentro do forno, onde é devorada pelas chamas.
No outro extremo está a criança que não come, que para de se alimentar. Por vezes, a recusa alimentar surge como um limite para um excesso vindo do Outro, como a única solução para preservar seu próprio desejo. A anorexia em jovens adolescentes testemunha isso. O objeto, neste caso, não é a comida, mas o nada. Não se trata de dizer que o anoréxico não coma nada. Lacan enfatiza: “Na anorexia mental, o que a criança come é o nada”[8].
Em “A teoria do parceiro”[9], Jacques-Alain Miller propõe que a anorexia deriva da separação, com a rejeição do Outro em primeiro plano, enquanto a bulimia está do lado da alienação, com a ligação com o Outro enfatizada.
E o que se pode dizer de uma boca “cosida”, senão que o silêncio muitas vezes incarna “a instância pura da pulsão oral, fechando-se sobre sua satisfação”[10]? Qual a relação entre a fala, a linguagem e a pulsão oral?
A pulsão oral também se manifesta na gulodice do supereu: voraz, insaciável. Para Lacan, essa gulodice “é estrutural – não é um efeito da civilização, mas um ‘mal-estar (sintoma) na civilização’”[11]. O supereu não surge simplesmente do comportamento do ambiente da criança ou de seus pais. É importante lembrar disso em uma época em que falamos com frequência de disciplina ou de educação positiva. Considerar o supereu como estrutural nos permite abordar a questão da culpa de forma diferente e mensurar seus efeitos, às vezes devastadores, sobre a criança.
Em um outro registro, como abordar hoje a dependência às drogas, a toxicomania? Ou ainda, com esse consumo voraz de telas e redes sociais?
O que podemos dizer sobre as possíveis formas de sublimação da pulsão oral por meio da incorporação do significante, como sugere Lacan ao usar a expressão “comer o livro”[12], tomada emprestada do Livro do Apocalipse de São João? Como surge para a criança o desejo de saber, essa “avidez curiosa”[13] tão crucial ao seu desenvolvimento individual?
Todas essas são questões presentes na clínica com crianças e adolescentes, as quais devem ser exploradas sem moderação.
Como nos lembra o monstro Chapalu: “Aquele que come já não está sozinho”[14].
Nós nos vemos no próximo encontro do Instituto Psicanalítico da Criança do Campo freudiano, no dia 20 de março de 2027!

