Carolina Koretzky Gostaria de compartilhar com vocês alguns elementos teóricos relativos aos sonhos e pesadelos…
Abertura Eve Miller-Rose – 4 setembro2025
É uma alegria estar com vocês em Belo Horizonte para a terceira conversação CIEN-CEREDA na América Latina sobre «As imagens que dão medo». Este tema situa-se num campo de investigação mais amplo que mobilizou os participantes das redes do Campo freudiano sobre a Infância, nos últimos dois anos: «Sonhos e fantasmas na criança».
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A psicanálise opera com as palavras porque «o inconsciente só possui um corpo de palavras»1. O inconsciente implica que o escutemos e que o leiamos com o apoio do discurso analítico.
Como vocês ouvirão nas apresentações de casos e de vinhetas, os praticantes orientados pela psicanálise estão atentos ao que se diz, se mostra, se decifra, ou permanece insondável.
Trata-se de colher as surpresas e de acolhê-las como sendo «o feito do inconsciente»2. A partir deste acolhimento, o que vem a ser dito ou a se mostrar pode então, para a criança, constituir-se como saber.
O inconsciente se abre quando a criança faz de conta. Ela conduz o jogo, e seus significantes-mestres assim como seus objetos privilegiados se isolam. Formações do inconsciente participam disso, como que por surpresa! O analista sustenta a operação em construção no sonho, no jogo, nas histórias. São lugares onde a criança tenta dizer, para fisgar o impossível de suportar, para cernir o indizível.
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«As imagens que dão medo» ocupam muitas vezes um lugar privilegiado nos encontros e nas análises de crianças – e não apenas de crianças -, que tentam compartilhá-las, através do desenho ou da narrativa imagética. Perguntemo-nos então: quando as imagens que dão medo surgem para o sujeito? Pode acontecer que «o imaginário do sonho ofereça […] uma figuração patética que se paga com a angústia»3.
Quando o ser falante é confrontado com «a inadequação das palavras às coisas»4 precisamente, «a tentativa é imaginar o real»5. Esta é a leitura que Jacques-Alain Miller nos dá do último ensino de Lacan, e ele especifica: «Imaginar o real passa por essa estranha materialização que constituem essas figuras, que são figuras de objetos».
Perguntemo-nos também sobre o horror. Qual figura ele toma para cada um?
J.-A. Miller, leitor de Lacan, nos convida a não nos deixar fascinar pelo horror. Na fenomenologia da angústia, o horror pode aparecer como um esplendor fascinante, deslumbrante, ofuscante. O horror designa um abismo patético. Consideremos, em vez disso, o momento de angústia como logicamente necessário e até produtivo6.
O monstro seria um objeto fóbico ou um aparelhamento imaginário que permite ao real da angústia, que a criança não pode nomear, de não se manifestar?
O monstro é portador de objetos pulsionais ferozes. Passar pela descrição e pelo desenho permite que o monstro se desinfle; o uso dos significantes e do traço permite uma localização.
«Na teoria analítica, nota J.-A. Miller, Freud situa […] o horror como uma defesa do sujeito»7. É uma defesa da qual ele sofre. Mas de que o sujeito se defende? «Será que o sujeito se defende de uma verdade? de um saber?» Talvez «dos impasses do saber, e precisamente do real como impasse do saber?»
Fiquemos, portanto, atentos em cada caso: a imagem que dá medo será que ela surge no lugar mesmo do que faz impasse para o sujeito? Esta localização do sofrimento seria também uma localização do gozo? Será que a criança procura domar o monstro ou se servir dele para se assustar?
A primeira sequência abrirá estas perguntas: o horror, seus usos e suas funções.
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A segunda sequência será dedicada ao pesadelo, e ao que ele fisga.
Em nossa prática, nós nos interessamos pelos sonhos das crianças. Nos relatos dos sonhos das crianças, localizamos o ponto de inflexão que coincide com o momento de angústia.
Com Freud, há o que faz sentido. Com Lacan, há também o que faz furo8. Quando a criança é cruamente confrontada com o real, sem interposição de palavras, «todas as palavras estacam e […] o objeto de angústia9» surge.
Trata-se de seguir o fio do que Lacan chama de umbigo do sonho. O umbigo do sonho indica a parte de gozo indizível que é inerente ao sonho e que ganha seu valor máximo no pesadelo que ele, por sua vez, desperta.
Há também casos em que o sonho continua, e tudo é engolido, tal como uma figura da morte onde tudo se acaba.
Lacan indica-nos que, no sonho princeps de Freud intitulado sonho da injeção de Irma, há a «aparecimento angustiante de uma imagem que resume o que podemos chamar de revelação do real naquilo ele tem de menos penetrável, do real sem nenhuma mediação possível10». Ele reconhece no umbigo do sonho, um furo, um impossível de dizer. Aquilo de que se trata «só pode ser formulado de uma maneira deslocada, nunca no bom lugar11».
Não há palavra final. Nenhuma última palavra. Nada que constitua uma resposta ao que quer que seja sobre o sentido do sonho. No sonho de Freud, surge uma fórmula química, a da trimetilamina, hermética, que não quer dizer nada.
Às vezes surge uma imagem que dá medo e que condensa o irrepresentável, conforme ao modo pelo qual uma fórmula química condensa o indizível. Nisso, esta imagem que dá medo poderia ser também um recurso, uma construção da criança, confrontada com o real como impasse do saber?
Agora damos lugar para a conversação clínica.
Tradução : Maria Antunes
Revisão : Cristina Drummond

