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Sobre a necessidade de ficções[1]

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Carolina Koretzky

Gostaria de compartilhar com vocês alguns elementos teóricos relativos aos sonhos e pesadelos nas crianças – podemos até nos perguntar se existe ou não uma especificidade do sonho nas crianças –, e depois, terminar com algumas considerações sobre a época atual e o lugar dado ao sonho. Abordar o lugar e a função dos sonhos e pesadelos nas crianças é uma questão clínica, ética e política, aspectos que se entrecruzam e que tentarei mostrar sua amarração.

Recordemos algumas considerações gerais sobre o sonho e sobre o pesadelo. Todos nós lembramos que a tese freudiana relativa aos sonhos é que eles são a estrada real de acesso ao inconsciente, na medida em que o desejo recalcado figura como realizado. O sonho, por outro lado, tem a função de preservar o sono, sendo, portanto, o guardião contra a emergência da satisfação pulsional que nunca dorme. Isso significa que o sonho, como formação do inconsciente, é o resultado de um compromisso entre a realização de um desejo inconsciente e o desejo de dormir, entre a pulsão e a censura. O sonho é uma formação de compromisso que pode, assim, realizar o desejo de dois sistemas simultaneamente. A fórmula final que Freud estabelece em A interpretação dos sonhos integra o mecanismo de censura: “O sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (suprimido, reprimido)”[2] – tal é a tese principal. A essa definição foi acrescentado, em 1911, o desejo infantil: “O desejo representado no sonho é necessariamente infantil”[3]. No entanto, que o sonho chegue a um compromisso é, por si só, um pouco suspeito, pois esperar um acordo entre o desejo e a censura só pode ser uma ilusão, uma condição quase impossível; desde que se trata de um material inconsciente já recalcado, não há submissão total de um sistema para com o outro. A tese da “conciliação” como coincidência de desejos parece bastante fraca. O caminho do compromisso nem sempre significa conciliação. O desejo recalcado não está sob o regime do desejo de dormir; esses desejos não dormem, não desejam dormir. Nem tudo no sonho é devaneio (songe)… a interrupção do sono é sempre um risco, uma defesa que substitui uma desfiguração impossível e um compromisso defeituoso.

A força pulsional não se enquadra no regime do desejo de dormir, de modo que a interrupção do sono ocorre diante do indomável da pulsão, da angústia como proteção e limite contra o horror. Sabemos desde Freud que a produção da angústia que põe fim ao sono substitui a censura, que não opera uma deformação correta do desejo. Para Freud, a angústia que interrompe o sono não tem o estatuto de sinal de alarme, mas de índice do horror da verdade. Lacan segue Freud quando diz que “um sonho acorda exatamente no momento em que poderia liberar sua verdade”, mas completa: “de modo que não se acorda senão para continuar sonhando – para sonhar no real, ou para ser mais preciso, na realidade”[4]. Nesse sentido, essa verdade, que em Freud se refere ao recalque, mostra claramente que o sujeito está apenas se defendendo diante de uma possível irrupção de um real dentro do sonho. O despertar intervém, portanto, para que continuemos a sonhar, de olhos abertos.

A partir de 1915, a perspectiva pulsional na conceituação do sonho estará cada vez mais presente: a exigência pulsional no sonho desvela o aspecto de “defesa” do sonhar, mais especificamente da realização do desejo. Em Esboço de Psicanálise, Freud acentua a função do sonho como uma defesa contra a pulsão. Ele diz: “O trabalho do sonho tem como função essencial substituir uma exigência (pulsional) por uma realização de desejo”[5].

Parece-me fundamental lembrar isto porque o próprio Freud, à medida que progredia, encontrava obstáculos na tese do sonho como realização de um desejo: primeiro, a interrupção do sono pela angústia como fracasso de um compromisso; depois, vêm os sonhos traumáticos que refletem um ultrapassamento do princípio do prazer, eles constituem uma exceção à teoria da realização de desejo. O que então entra em jogo para Freud é uma nova consideração da relação entre o sonho e a pulsão, porque a força pulsional é real, o que o leva a redefinir o sonho como uma “tentativa” de realização do desejo, e é preciso insistir na palavra tentativa, “o sonho tenta figurar uma realização de desejo”[6]. Tentativa que pode falhar na medida em que a pulsão específica da fixação traumática é ativada.

O sonho traumático, portanto, não está reservado aos traumatizados pela guerra ou por acidentes graves. Essas formas graves de trauma abriram as portas para Freud reconsiderar o conjunto de sua teoria: compulsão à repetição, pulsão de morte, além do princípio do prazer, mas para todos. Freud dizia que a fixação inconsciente de um traumatismo constitui o maior obstáculo à função do sonho porque as experiências infantis têm um caráter traumatizante e que permanece demonstrado por esta falha estrutural e específica do trabalho do sonho. Nem tudo pode ser disfarçado, desfigurado, encoberto. A substituição significativa enquadrada por uma imagem sensorial, dizia Freud, nem sempre consegue velar a fixação traumática.

Lacan teve uma definição curta e justa a esse respeito durante o Seminário 23: ele definia todo sonho como um “pesadelo temperado”. Cada sonho é um pesadelo temperado, porque é o tratamento de um real, ele se constrói em torno de um impossível de dizer. Daí o caráter essencial para salvaguardarmos este espaço do sonho: ele não é apenas um semblante, um misto falso de imaginário e simbólico, pelo contrário! Ele é fundamental para nós porque é neste espaço do sonho que surgirá um real como acontecimento.

É a nova perspectiva que nos leva a repensar uma nova forma de articular o desejo, e o que aparece como incompatível, a saber, o gozo, porque “O sonho torna-se uma nova introdução à oposição desejo-gozo”[7] porque, deste ponto de vista, ele diz: “O gozo não é realização do desejo. Ele é o que não pode ser articulado nos caminhos do desejo”[8]. É precisamente por isso que o sonho e sua realização de desejo mascaram, como Freud já havia percebido, mas também é o espaço para a emergência de um fora de sentido.

Esta é a orientação de um grande número de casos que ouviremos durante esta jornada de trabalho. É precisamente isso que Daniel Roy diz no seu argumento “Sonhos e fantasmas na criança”[9]: “Há, portanto, dois caminhos para o trabalho do sonho que se abrem a partir do material significante: o do desejo, pelo qual a realidade é construída, e aquele que cava o buraco por onde toda realidade escapa em direção a um impossível de representar.”

Às vezes é o buraco sem as ficções, a irrupção brutal. Mas não devemos compreender demasiado rapidamente. O sonho e a realidade material não são sistematicamente distinguidos na criança. Freud já indicava, no caso do Homem dos Lobos, que, depois do despertar, as imagens do sonho dos lobos na árvore eram tão vívidas que o paciente relatou não ter ficado imediatamente convencido do caráter onírico dessa experiência. Durante uma supervisão, uma jovem colega me relatou a frase de um menino insone que há meses reclamava de sofrer de pesadelos, mas sem conseguir entregar seu conteúdo. Essa jovem criança insone um dia lhe disse: “Sabe, eu não consigo dormir porque eu não paro de ter pesadelos”. Ela retruca: “Mas como você tem pesadelos, já que você não dorme?”. O que ele chamava de pesadelos eram frases alucinatórias que o invadiam na hora de dormir.

Outro pequeno exemplo. Recentemente, Philippe, uma criança de oito anos, foi trazida por seus pais após a separação deles. Desde essa separação violenta e cheia de brigas, os pais notaram um tique nervoso da criança, no pescoço, e uma agitação escolar. Por sua vez, Philippe me explica que não consegue entender como funciona a guarda compartilhada, que nunca entende onde dorme, qual semana é com o pai, qual é com a mãe. Na escola, é verdade, ele leva uma bronca da professora porque não para de se mexer, mas a culpa não é dele: é que ele não sabe onde colocar as “tesouras” e nunca encontra o lugar certo para elas. Mas acima de tudo ele está angustiado, sua mãe tem uma raiva imensa de seu pai, que ele ama muito, uma identificação viril que lhe é fundamental. Não, ele não tem ideia do motivo da separação dos pais, ele não sabe de nada. Mas a raiva da mãe é permanente; ela fala muito mal do pai. A mãe me confessa durante uma entrevista que, na verdade, ela falava demais com o filho, falava mal do pai, mas que, apesar disso, ela não contou tudo para ele! Ela me contou: as grandes brigas antes da separação diziam respeito à descoberta de uma “adição” do pai de Philippe à pornografia. Ela havia fuçado muito nas coisas dele e obrigou este último a confessar. Para ela, foi uma enganação que não merecia nenhuma indulgência. Após vários meses de consultas, de repente, Philippe me confessa que tinha pesadelos repetitivos, sempre o mesmo. Ele está dentro de um videogame de que gosta muito. Ele adora esse jogo, já falou tantas vezes sobre isso comigo – é um verdadeiro objeto de desejo. Mas em seu sonho, ele caminha dentro desse jogo. De repente, encontra um dos personagens, um gatinho, mas no sonho o gato é diferente: ele tem olhos vermelhos, de um vermelho brilhante. Ele é assustador. Ele acorda sobressaltado. O objeto de gozo se manifesta na forma da efração; a pregnância do objeto de gozo do pai e o olhar intrusivo da mãe fazem irrupção no seio das ficções. Este exemplo mostra os dois caminhos do sonho que às vezes podem se encontrar em oposição: o do desejo e o do gozo.

É no espaço dos sonhos que a criança evoca aquilo que ela não consegue representar ou se representar por si mesma, o enigma por vezes indecifrável que ela é para o desejo do Outro. Não esqueçamos que na Idade Média os íncubos e os súcubos eram seres diabólicos que visitavam aquele que dormia e oprimiam seu peito. Lacan refere-se a isso em seu Seminário 10, A angústia, para recordar o caráter gozoso, mas sobretudo enigmático, desses seres místicos.

Freud notou em sua prática a importância que os contos populares tinham na produção onírica. Podemos ainda evocar o sonho do Homem dos Lobos em que uma parte significativa do conteúdo é sobredeterminada por “Chapeuzinho Vermelho” e pelo conto “O lobo e os sete cabritinhos”. Num grande número de casos, Freud observa como a “lembrança de suas histórias favoritas tomou o lugar das próprias recordações da infância; eles converteram as histórias em lembranças encobridoras”[10]. Porém, para Freud, elas têm o mesmo estatuto: “sem qualquer preocupação com a precisão histórica”[11], ele afirma. As histórias e os contos folclóricos são uma fachada, mas tela ou fachada nunca são falsos. Pelo contrário, para Freud, o valor fundamental dessas formas épicas é que sempre deixam transparecer o que elas velam, permitem-nos aproximar-nos de uma verdade indizível.

Há alguns meses, durante uma conversa clínica em Barcelona com colegas da ELP, uma colega que trabalha com equipes escolares em creches (crianças entre 3 e 5 anos) contou-nos que os funcionários das escolas para crianças muito pequenas recebem documentos oficiais pedindo-lhes que fiquem muito atentos a quaisquer palavras ou escritos que possam causar danos psicológicos às crianças. Por exemplo, é necessário suprimir todos os livros que apresentem estereótipos sexistas, como mulheres com vestidos; ou ainda passagens chocantes ou violentas, como lobos que comem avós. Esse documento oficial do governo dava instruções concretas e precisas sobre como falar com as crianças, quais músicas podem ser cantadas e como mudar os personagens de determinados contos. Por fim, ser sensível para não perpetuar e reproduzir estereótipos raciais e de gênero parece-me fundamental. Mas tentar eliminar da literatura qualquer coisa que possa ofender as sensibilidades parece-me questionável. Há uma redução da função da literatura a um espaço onde se formam comportamentos e valores, uma redução catastrófica. A literatura é muito mais do que isso. A literatura não tem apenas a função de nos ensinar a conviver, ela não tem apenas uma função educativa e moralizadora. A literatura, como observou Freud, alimenta nossos sonhos; ela é, como todas as ficções, uma ferramenta de sintomatização, um lugar onde o sujeito pode encontrar significantes e imagens para tratar um real. Os discursos atuais sustentam o bem-estar emocional, buscam higienizar tudo e proteger as crianças de personagens maldosos e violentos com a vã ilusão de que isso poderá erradicar a pulsão de morte que habita cada um de nós. Pelo contrário, por causa desse normativismo, as crianças não terão mais onde encontrar as ficções que poderiam tratar os gozos que agitam seus corpos… Mas o diabo que é jogado porta afora acaba entrando pela janela, como vemos num aumento espetacular da violência escolar na nossa época. Daniel Roy lembrou-nos: é preciso “forjar as ferramentas para nos opor ao despejo das crianças do mundo dos semblantes” – aqui a clínica se une à política e à ética, e mostra a necessidade urgente, hoje, de defender o espaço do sonho. Defender o sonho como um espaço de interpretação, de narração, de ficção, mas que se faz eco do intratável que ela trata, onde as palavras se tecem em torno de um impossível.

Acho que precisamos permanecer vigilantes. Alguns discursos hoje em dia não gostam que façamos os sonhos falarem. Esses discursos reduzem o sonho a não ser nada mais do que uma simples experiência de consciência modificada ou de descarga cerebral. O discurso capitalista não gosta de sonhos, ele prefere o sono: vamos dormir bem! Vamos descarregar esses sonhos, esse lixo, para sermos bem eficazes no dia seguinte! Na lógica da produção/consumo, o sonho não tem seu lugar. Vocês sabem que [Ailton] Krenak nos convida a voltar aos sonhos. O sonho é um ato de resistência política. No espaço do sonho são criados novos sentidos que tratam o real, é um lugar de invenção e de poesia. Revalorizar os sonhos significa ir contra, como diz Krenak, o desencantamento do mundo, um mundo que desvaloriza os espaços de interpretação. Voltar ao sonho é resistir e lutar para manter a margem de interpretação; sem essas margens e esses espaços de interpretação, corremos o risco de ir em direção ao pior. O sonho é uma produção subjetiva que nos surpreende, que nos interroga, que nos angustia, que nos divide e que não nos permite acreditar que somos idênticos a nós mesmos. Manter o espaço dos sonhos é proteger o espaço do desejo e do gozo para continuarmos a nos tornar um mistério para nós mesmos.

 

Tradução: Cristina Drummond
Revisão: Alessandra Thomaz Rocha

[1] Apresentação realizada no VIII Encontro dos Núcleos da NRCereda Brasil e X Conversação Cien Brasil, em 7 de novembro de 2024.
[2] FREUD, S. A interpretação dos sonhos. [1900] Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 182. (Obras completas, 4)
[3] Ibid., p. 556.
[4] LACAN, J. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. (1969-1970) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. p. 54.
[5] FREUD, S. Esboço de psicanálise. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 196.
[6] FREUD, S. Revisão da teoria dos sonhos. Conferência 29. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 43.
[7] Le rêve. Son interprétation et son usage dans la cure lacanienne. XIIème Congrès Association Mondiale de Psychanalyse – 14 a 18 dec. 2020. Disponível em:  https://congresoamp2020.com/fr/articulos.php?sec=el-tema&sub=textos-deorientacion&file=el-tema/textos-de-orientacion/19-09-11_el-despertar-del-sueno-o-el-esp-de-un-sue.html
[8] Ibid.
[9] ROY, Daniel. Rêves et fantasmes chez l’enfant. Institut Psychanalytique de l’Enfant du Champ Freudien. 2025. Disponível em francês: https://institut-enfant.fr/orientation/presentation-du-theme/reves-et-fantasmes-chez-lenfant/. Em português: https://www.revistarayuela.com/pt/010/template.php?file=notas/suenos-y-fantasmas-en-el-nino.html
[10] FREUD, S. A ocorrência em sonhos de material oriundo de contos de fadas. (1913) In: FREUD, S. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia: (“O caso Schreber”): artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 222. (Obras Completas, 10)
[11] FREUD, S. Lembranças encobridoras. (1899) In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. III. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 190.
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