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Fragmentos do gozo dando forma ao desejo

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Ana Lydia Santiago

A cena do inconsciente: o fantasma, mais além dos discursos

Se procuramos comentários sobre o filme Billy Elliot, vamos encontrar pareceres elogiosos sobre seus atores – em especial Jamie Bell que encena Billy –, considerações unânimes acerca da sensibilidade do filme e sua capacidade de tocar os espectadores. As análises de conteúdo destacam a luta contra o preconceito, a superação de adversidades e a força da família. Esses temas, sem dúvida, estão na ordem do dia dos discursos atuais. Contudo, convidaria vocês a reconhecer no cenário desse filme uma alegoria do inconsciente. O mar infinito encontrando o limite imaginário do horizonte é mostrado em poucas cenas, atrás de um muro, que se impõe. Diríamos que é a libido infinita, que contrasta com o espaço circunscrito por construções de tijolos. Todas imagens muito semelhantes, familiares, mas complexas e labirínticas em seu interior, habitando cenas inimagináveis e corriqueiras ao mesmo tempo.

A maioria das cenas externas têm como pano de fundo a opressão policial contra o movimento grevista dos mineiros e suas ideias. E, em meio a tudo isso, o gozo e o trabalho significante, duas componentes absolutamente heterogêneas, mas que se articulam de alguma maneira a partir de sulcos e traços que representam o sujeito sempre evanescente em sua relação com o objeto.

Três crianças: Billy, Michael e Debbie. Michael é o amigo de Billy, que se recusa a entrar no ginásio para as aulas de boxe, como os outros meninos do vilarejo. Debbie é bailarina, filha da professora de dança. Veremos a diferença entre esses dois amigos, capturados pelo objeto do fantasma, e Billy, que está mais conectado com o desejo circunscrito a partir de uma falta, de um objeto perdido, que deixou fragmentos de palavras e gozo. Billy é convocado por cada um dos amigos a ocupar o lugar do objeto do fantasma deles, o que recusa, sem hesitar.

O objeto perdido e o que resta

Billy entra no ginásio para seu treino de boxe. O treinador anuncia que o estúdio de dança será usado pelos grevistas, e por conseguinte, as aulas de dança da Sra. Wilkinson passarão a acontecer na mesma sala que o boxe. Enquanto um piano e algumas garotas de tutus entram no ginásio, Billy sobe no ringue e é golpeado com uma direita, sob o olhar desolado de seu pai. Billy ainda está no ringue estirado no chão, quando repara o deslocamento do piano pela sala.

Juntando os detalhes que as cenas do filme vão tramando e propondo diante dos olhos de seus espectadores, pode-se dizer que o piano é o objeto que chama a atenção de Billy, pela conexão com sua mãe. Em uma das primeiras cenas do filme, Billy tenta encontrar uma melodia no piano, reproduzindo uma sequência de três ou quatro notas. Sua avó o observa e murmura os sons. Mas seu pai, Jackie, fica perturbado e, fechando a tampa do piano com um gesto brusco, lhe diz: “Para com isso, Billy”. Em seguida, sai apressado para a jornada de greve na mina onde trabalha. Billy reabre o instrumento e repete as mesmas notas, não sem retrucar: “Minha mãe não teria se importado”.

É assim que ficamos sabendo que o piano e a mãe estão entrelaçados na lembrança da criança. Apenas mais tarde, na cena em que Billy e a avó vão ao cemitério, vamos entender que se trata de Jenny Elliot, falecida prematuramente, de acordo com a inscrição em sua lápide. Enquanto a estratégia do marido é negar o fato, evitando lembrar-se da esposa, a avó de Billy, com semblante alheio e memória enfraquecida em função da idade avançada, acompanha o som do piano, murmura a melodia e relata para o neto lembranças de sua mãe.

Voltando à cena no ginásio: Billy segue com os olhos o objeto piano até o canto em que este é  instalado para as aulas de balé. Após o treino de boxe – obrigado a permanecer no local  para treinar mais –, o som do piano o desconcentra e ele vai espreitar. Fica olhando o movimento das bailarinas executando passos ao ritmo da música sob as determinações da professora. De repente, Debbie lhe faz um convite, cujas palavras começam a dar corpo ao seu desejo. Ela lhe diz: “Por que você não entra?” Depois reforça: “Os meninos podem fazer dança sem serem ‘bichas’”.

Em outra cena, a avó comenta: “Fred Astaire era o preferido de sua mãe!” Palavras que como marcas sonoras, sulcam o corpo e delimitam o vazio do desejo. “Nós íamos assistir no cinema Palace Hall e depois dançávamos na sala, feito doidas. Maravilhoso! Eles diziam que eu poderia ter sido uma profissional!”

Enquanto pai e irmão estão no movimento de greve, Billy, às escondidas, se movimenta nas aulas de dança. Mas seu pai descobre e o proíbe brutalmente de qualquer atividade fora de casa. Billy reage, dizendo-lhe: “Eu odeio você!” Nesse momento, seu corpo se infla de raiva, ele se precipita para a rua dançando sem parar. Ele dança, dança, até encontrar uma parede que lhe faz limite. “Eu não quero ter infância. Eu quero ser bailarino.” A avó, que presenciou a conversa entre pai e filho, comenta novamente: “Eu poderia ter sido uma profissional se tivesse praticado”.

“O que você sente quando dança?”, pergunta-lhe uma das juradas da banca de seleção para a escola do Royal Ballet.

Billy responde:

Eu não sei.

Eu me sinto bem.

É meio duro no início, mas depois eu esqueço de tudo e é como se eu desaparecesse. Sinto uma mudança no meu corpo todo. Como se eu pegasse fogo. Eu fico lá, voando, como um pássaro. Como uma eletricidade. Como eletricidade!

Billy é aceito no Royal Ballet. A família comemora e somente nesse momento podem escutar a avó repetir o que provavelmente teria escutado de um Outro: “Acho que você deveria aprender um trabalho manual, alguma coisa útil.” E a resposta indignada do sujeito: “Eu poderia ter sido uma bailarina!”

A fórmula do fantasma

$ <> a apresenta a relação do sujeito com o objeto do gozo, o objeto pequeno a, como Lacan o nomeou. Freud isolou dois objetos – o seio e o excremento –, aos quais Lacan acrescentou outros dois: o olhar e a voz. Esses quatro objetos são objetos substitutos da falta. Eles se constituem na relação singular do infans com o Outro que o assiste, organizando a libido e sua circulação em torno dos orifícios do corpo. É a partir do vazio de gozo extraído como ponto de partida, que a libido pode circular e, assim, o corpo se torna corpo erógeno. Na fórmula do fantasma, o sujeito é sujeito dividido, sempre evanescente em relação ao objeto e ao Outro.

Como refletir sobre essa breve consideração no caso das crianças do filme?

Michael comenta com Billy ter visto seu pai vestido de mulher. Ele se oferece nesse lugar ao olhar do Outro. Recusa-se às coisas de menino, aceitando entrar no ginásio apenas quando pode vestir-se com tutu para fazer par com Billy. Debbie, por sua vez, conta a Billy sobre a decepção amorosa de sua mãe, ao descobrir a traição do marido. Falando com muita propriedade das coisas de sexo, ela seduz Billy, perguntando-lhe: “Você quer que eu mostre minha perereca?” Billy responde: “Melhor não.” Assim ela o convida a ocupar o lugar de objeto, a partir do qual ela poderia dedicar-se ao fantasma de completar o parceiro, sendo uma companheira perfeita, que não foge do sexo. Chega a explicar-lhe tudinho, mas Billy surpreende-se:  “Ela (sua mãe) dança ao invés de fazer sexo?”

Tanto para Michael, quanto para Debbie, a resposta negativa de Billy é firme. O gozo em seu corpo é de outra ordem, como explicita em sua resposta à jurada da banca de seleção: o sujeito desaparece, é pura eletricidade.

 

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