Eve Miller-Rose É uma alegria estar com vocês em Belo Horizonte para a terceira conversação…
EDITORIAL
Claudia Santa e Flávia Cêra
Neste número faremos um sobrevoo sobre os últimos temas de trabalho das Redes sobre a Infância do Campo Freudiano trazendo textos orientadores e os destinos que eles ganharam no CIEN-Brasil. Começamos com o texto de Eve Miller-Rose que abriu a conversação das Redes na América, em Belo Horizonte, com o tema Imagens que dão medo. Neste texto temos orientações precisas que apontam para as surpresas, para o lugar do inconsciente, do saber da criança e a posição do analista. É uma bússola para acompanharmos os lugares “onde a criança tenta dizer, para fisgar o impossível de suportar, para cernir o indizível”. Neste número também trazemos o texto de Carolina Koretzky que atravessa o tema dos Sonhos e fantasmas na criança, intitulado Sobre a necessidade da ficção que faz um percurso sobre seus usos e as funções para a criança Destacamos como uma orientação para o CIEN, cujo trabalho com os sonhos se sustentam delicadamente em realçá-los como uma uma pérola indicando que “precisamos permanecer vigilantes. Alguns discursos hoje em dia não gostam que façamos os sonhos falarem”.
Sobre o trabalho que está por vir, podemos ler no texto de Daniel Roy, As crianças e seus objetos que apresenta uma leitura muito precisa sobre os objetos percorrendo Freud, Klein, Winnicott, que Lacan traz com muita novidade na clínica. Temos também o texto de Ligia Gorini, Comer: a pulsão oral nas crianças, que é o argumento da próxima Jornada do Instituto da Criança e que orienta os trabalhos das Redes sobre a Infância. Um texto para “ser trabalhado, temperado e saboreado”!
Os laboratórios se debruçaram em torno do tema Sonho e Fantasma na Criança, proposto pelo Instituto Psicanalítico da Criança do Campo Freudiano, na França. Conceitos caros à psicanálise. Como pensar este mote, a partir dos impasses e discursos interdisciplinares, fundamentais a um laboratório do CIEN? Pergunta que nos orienta há algum tempo. Nestes textos, podemos ter uma amostra de como é interessante fazer esse giro, entre disciplinas e psicanálise, com as conversações que ilustram as vivências das instituições e do trabalho com crianças e adolescentes na cidade, e por fim, ter essa visão panorâmica do trabalho do CIEN neste encontro entre a cidade e a psicanálise. Alguns dos trabalhos nos mostram como essa interface do tema com a prática da conversação pode ocorrer, outros nos faz refletir os impasses do contemporâneo e de como é possível seguir os efeitos da conversação como aposta fecunda do dispositivo do CIEN. Seguimos com os escritos dos laboratórios:
No texto escrito pelo laboratório Bola de Gude, Caminhos de significantes e sonhos, efeitos de CIEN que despertam, a partir da pergunta “o que é terror?” instalou-se a conversação. O terror vivido e o terror dos filmes, dão lugar à palavra que circula, encontrando nos relatos de sonhos um dizer que pode fazer algo se movimentar no discurso.
O laboratório Ser, parecer, sonhar nas redes sociais com o texto Therians: Identidade, corpo e pertencimento nas redes sociais traz uma interessante contribuição, refletindo o tema sonho e fantasma na criança através das conversações com jovens e suas interações nas redes sociais. A conversação acontece trazendo a baila a questão dos chamados Therians, um nicho de adolescentes “que acreditam ser de alguma espécie animal.”.
O Laboratório A criança entre a mulher e a mãe apresenta o texto Eu até sonhei com você traz uma rica vinheta sobre um sonho, que presente nas conversações deu lugar não a uma interpretação psicoterápica, mas a chance de “dar lugar à palavra da criança com os significantes que ela traz e articula na construção de seu saber sobre o que se passa com ela”.
O texto A morte e os sonhos: O encontro do CIEN com adolescentes Guarani do Laboratório Afinidades nos faz pensar o que é escutar outras culturas, e como extrair a potência do CIEN, em sua contribuição para que “algo dos outros discursos também afete a psicanálise”. E destaco no texto a seguinte pergunta: “Como é possível pensar o enlace dos desejos singulares dos jovens com seus corpos e com a coletividade da cultura Guarani da qual fazem parte?”
No texto do Laboratório Entre Escolhas e Expectativas, intitulado A conversação sobre sonhos: ponto de impossível ou um lugar a pertencer?, o sonho começa a aparecer na conversação como um sonho de vida, passando depois aos sonhos e seus significados, até esbarrarem nos sonhos que angustiam, ou seja, o sonho está sempre presente, e que podemos querer saber ou não do que eles nos mostram.
O laboratório Encontro de Saberes no texto Por ter sido sonhado, apresenta uma série de cinco conversações com crianças de uma escola pública demandada pelos responsáveis por uma presença importante da violência. As conversações vão permitindo que cada criança tome a palavra, nomeie, e diga do seu próprio mal-estar.
No texto A escola teria uma fantasia sobre os corpos pretos? do laboratório A escola e suas cores, as autoras tomam a leitura do texto de orientação sob um viés interessante, pelo prisma do fantasma. Uma escrita que questiona os lugares dos discursos dominantes e como a instituição escolar pode lidar com questões raciais, abrindo caminhos para um trabalho possível, e isso fica mais fácil “quando deslocamos do mundo de dominação para fazer permear o objeto a, dar lugar para a falta.”
Nos trabalhos a seguir, teremos contribuições sobre os efeitos que o dispositivo do CIEN pode despertar, e assim, evidenciando que o CIEN se faz cada vez mais necessário na contemporaneidade.
O trabalho O corte entre o silêncio e a palavra: O que fazer com isso? Nos apresenta uma questão crucial. Quais efeitos nessa prática de conversação, podem também operar na formação analítica? No laboratório A criança e o jovem na hipermodernidade, surge um ponto: se deparar com um não saber, e dele, um “querer dizer” sobre as questões dolorosas que surgem na oferta da conversação.
No texto As Conversações na Biblioteca Hans C. Andersen e as danças das cadeiras do laboratório Criar o espaço de uma biblioteca pública é local para que a conversação aconteça, e nela, temas como medo, perdas, mudanças, e tantos outros ditos que surgiram, nas “danças dos discursos”.
No texto Autismo, como um sonho que não foi sonhado, do laboratório Protocolo Aberto, as conversações com os pais possibilitam surgir questões importantes, como por exemplo, a maquinaria estratégica que o mercado capitalista vem utilizando, fazendo da infância um de seus produtos, e também o empuxo a uma “forçagem de encaixe da criança” no sonho idealizado dos pais.
O Laboratório Janela da Escuta temos o texto: O adolescente especialista de si e o adolescente pesquisador: uma aposta na conversação vai discorrer sobre o saber que as disciplinas como o direito podem tecer sobre os adolescentes versus o saber do próprio adolescente, e como uma conversação abre espaço para um saber do lado do que o adolescente tem a dizer.
Nas Contribuições, o texto de Emelice Prado Bagnola que extrai da experiência de conversações dos laboratórios do CIEN algumas localizações importantes dos seus efeitos além de uma questão fundamental para pensarmos esse dispositivo: “qual a particularidade do discurso analítico na prática do CIEN?”. A coordenação do CIEN MG, composta por Clarice Túlio Duarte, Fernanda Bezerra Santiago e Marina da Cunha Pinto Colares, escreveu o texto A operação do inconsciente sobre o sonho: um recorte do dizer de jovens, apresentando como os laboratórios “Ser, parecer, sonhar nas redes sociais”, “Não dormir para não sonhar” e “Entre escolhas e expectativas” trabalharam o tema proposto do sonho e fantasma, elucidando como a prática do CIEN pode transmitir um saber que se produz como efeito das conversações. Temos também o texto de Mirta Fernandes, Fazer ex-istir o inconsciente, que apresenta a partir da sua experiência no CIEN-RJ, a aposta das conversações na construção de novas formas de laço.
Na rubrica CINE-CIEN temos quatro contribuições luminosas. Ana Lydia Santiago faz um convite para ver o filme Billy Elliot como uma alegoria do inconsciente apresentando uma leitura do fantasma. Luciana Silviano Brandão Lopes escreve sobre o filme Meu pé de laranja lima a partir do lugar da brincadeira e da fantasia na infância. Sobre a famosa série Adolescência temos dois textos, um da coordenação do CIEN-Rio que dá notícias da animada noite de conversação. O outro de Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros que extrai quatro sequências para ler a série tendo como fio norteador a pergunta: com quem contar? Cada um dos textos traz perspectivas novas para lermos a nossa época. Por aí que seguimos com nosso trabalho inter-disciplinar de pesquisa e conversações para continuar a fazer vibrar o vivo do CIEN-Brasil. Boa leitura!

