A escola teria uma fantasia sobre os corpos pretos?
Laboratório A Escola e Suas Cores
Nas escolas, quando algo atrapalha os processos educativos, aluno-problema é uma das variadas formas de nomear algo da impossibilidade de educar completamente. O professor, nessa trama, fica no lugar daquele que precisa resolver esse problema e, de algum modo, responder à instituição trazendo soluções. O lugar da escola como formação permite, a cada etapa, novas inserções nos espaços sociais, seja no grau do ensino, seja nas práticas de trabalho. A escola então tem responsabilidade, responde a algum processo da vida social. Nessa articulação que passa pela transmissão de algum saber, o racismo atravessa e destaca não só a cor, mas uma lógica que tensiona o comum, deixa aparecer a diferença e algo do insuportável se escancara.
Fantasia e sonho é por onde passa nossa discussão deste ano no CIEN-MG e, nosso Laboratório, A Escola e Suas Cores, se pergunta acerca da escola e a fantasia sobre os corpos pretos. A fantasia é um recurso simbólico, uma ferramenta para lidar com a realidade. Ela “tem estrutura de ficção, ela dá forma ao impossível da relação sexual”. É um modo de lidar com a falta no Outro e ler o mundo.
Não enxergar a cor não soluciona o problema das relações raciais, elas são como as lentes dos óculos, não a percebemos o tempo inteiro, mas estão operando, como uma película. Em uma conversação do Laboratório numa escola de Belo Horizonte que, a partir de uma demanda. para trabalhar o Novembro Negro em 2021, uma professora disse no primeiro encontro: “eu tive esse problema de racismo em outra escola e não soube o que fazer”, ainda angustiada, “uma criança chega até a mim e diz: ‘professora, a M. me chamou de preta’ foi muito ruim e fiquei sem saber o que fazer, aí eu coloquei todas as meninas em roda e fui perguntando o nome de cada
uma delas e elas foram falando e fui dizendo que todos têm um nome” outra professora preta afirma imediatamente: “nós temos nome, mas, também temos cor”.
O letramento racial, como instrumentalização para pensarmos as relações raciais no Brasil, pode nos ajudar a ler a fantasia sobre os corpos pretos, temos uma histórico colonial e isso tem consequências. Freud nos direciona a observar que a clínica não está desvinculada do social, isso nos convoca a ter uma leitura sobre o sujeito também fora dos consultórios após fecharmos a porta.
Marcus André Vieira em seu texto sobre culpa, temor e piedade, escreve: “Podemos sofrer verdadeiro pânico ao temer uma aparição que, descolada de qualquer sentido, coloca, num instante, o mundo em desordem. Falta ao medo a característica maior da angústia, pois o sujeito não é nem tomado, nem interessado nesse mais íntimo de si mesmo, mas sim reage a uma encarnação do objeto no outro.” Se são os sujeitos que possibilitam a instituição escola acontecer, para além da relação professor-aluno, ao corpo escolar também será importante pensar o mundo que construiu e do que se trata essa desordem. As relações raciais é uma janela que lê o mundo, que está sobre o corpo preto e também o corpo branco.
Qual a fantasia das escolas brasileiras, elas reproduzem a lógica colonial? Numa experiência com uma outra escola que recebe alunos bolsistas, uma coordenadora pergunta como fazer com o aluno para que ele aprenda alemão sendo que não aprendeu nem o inglês. Do que se trata esse pré-requisito, por onde passa que o inglês é necessário para aprender outra língua?
Se é do campo da impossibilidade a relação sexual, seria essa tentativa da escola de fazer do aprendizado do inglês antecessor necessário ao aprendizado do alemão uma tentativa ideal de significante totalizador? Seria então esse significante totalizador, “significantes plenos de todos os sentidos do mundo” o que poderia operar na constituição de uma escola? Esse sonho de fusão para fazer existir o amor a partir de significantes-mestres, também não seria um sonho colonizador?
Teria o aluno negro na dinâmica do mundo da escola uma dimensão de erro, como aquele que veicula uma impropriedade? O caso recente do jovem, gay e negro, que se suicidou após sofrer bullying numa escola de São Paulo parece evidenciar algo que a escola não quer se implicar. Quando uma resposta do ex-diretor foi dizer que
a Escola não é clínica de psicologia, que os alunos bolsistas são agressivos e a posição da escola foi rever a parceria com a ONG por onde recebia os bolsistas, podemos ler aqui alguma dimensão de verdade veiculada a partir de um erro? “O erro diz respeito, portanto, a um significante que é o “não poder ser”. Pode provocar o desprezo, a depreciação, a necessidade apaixonada de excluí-lo da série, de eliminá-lo. Este é o fundamento do ódio”.
Qual a ideia de uma escola? Daniel Roy tem uma orientação importante: Seja nos tratamentos que conduzimos ou nas instituições em que acolhemos e acompanhamos crianças, é nossa e das crianças a oportunidade de se deslocar nos discursos de dominação que buscam assujeitar as crianças. E por que não assujeitar os trabalhadores da escola? Os discursos de dominação também não passariam pelos porteiros das escolas, pelas pessoas que fazem a escola funcionar fora das salas de aula e dos professores? Lélia Gonzalez usa do significante naturalmente que estaria no imaginário sobre um corpo negro, malandro quando não trabalha, naturalmente ladrão, mulher negra naturalmente cozinheira, faxineira.
O trabalho com uma escola parece possível quando deslocamos do mundo de dominação para fazer permear o objeto a, dar lugar para a falta. Há uma falta também do lado da escola, isso pode ser um operador importante, quando no momento de receber um aluno não se trata apenas de receber suas perguntas gabaritadas mas aquelas que surgem a partir do singular que cada um carrega consigo e com seu corpo.

