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A operação do inconsciente sobre o sonho: um recorte do dizer de jovens

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Clarice Túlio Duarte, Fernanda Bezerra Santiago e
Marina da Cunha Pinto Colares – Cien MG

As Noites do Cien-Minas foram pensadas seguindo as orientações do Instituto Psicanalítico da Criança do Campo Freudiano, que realizará sua 8ª Jornada de estudo sobre o tema Sonho e fantasma na criança. Para elaborar a programação foi priorizada a indicação de Lacan de “opor-se ao despejo da criança do mundo dos semblantes”, a ser considerada não apenas no tratamento clínico, como no trabalho em instituições. A oportunidade, tanto para os participantes, quanto para nós, em nossa formação – centrada na leitura do Seminário 14, A lógica do fantasma – , foi a de poder se deslocar dos discursos de dominação que buscam o assujeitamento, e explorar os significantes-mestres que contam para cada sujeito, de forma a garantir que o sonho permaneça sendo a “via régia” para que o gozo possa se refugiar no objeto a, tal como Daniel Roy sinaliza em seu texto de orientação sobre esse tema. No mercado dos discursos de nosso tempo, o discurso analítico traz algo novo. As Conversações interdisciplinares realizadas pelo Cien-Minas visaram recolher das práticas de Conversações realizadas com adolescentes em instituições, os usos possíveis do sonho.

Sonho: guardião do sono e realização de desejo

O laboratório “Ser, parecer, sonhar nas redes sociais” apresentou o fenômeno contemporâneo manifestado por adolescentes que acreditam ser de alguma espécie animal. Chamados Therians, se organizam em torno de uma comunidade virtual. Por meio da Internet exibem suas performances, se movimentando como animais, se mostrando com adereços de orelhas, patas e máscaras animais. Nas conversações, os Therians falam do mal-estar maior que os assolam: a dificuldade de permanecer na escola, que para eles é um ambiente “humano”. Um adolescente conta que foi do conteúdo de um sonho, que ele extraiu a confirmação de seu pertencimento à espécie canina. No sonho, ele se encontra em uma mata, seu “corpo está esquisito”, ele não consegue dominar os movimentos. Logo em seguida percebe uma matilha de lobos correndo em sua direção. “Eles pararam na minha frente, olharam para mim, tinha vários deles me olhando e, então, eu acordei desconfiado que eu era um Therian.” Esse sonho é decisivo quanto ao seu ser. O olhar do grupo – matilha – o faz sentir-se parte daquela comunidade de cães de caça. Nesse caso, o sonho é relatado como tendo o estatuto de realização de seu desejo de pertencer a uma comunidade, ainda que seja de animais.

Um outro adolescente relata ter sentido muita sede durante o sono e então sonhou estar bebendo água em um bebedouro para cachorros, do jeito como o animal faz. Mesmo sendo evidente nesse caso a função do sonho como guardião do sono, o adolescente, inclinado que está em confirmar o erro da natureza sobre a espécie à qual pertence, interpreta esse sonho como a prova de que ele é um Therian.

Pesadelo, o guardião do sonhador

O laboratório “Não dormir para não sonhar”, composto por profissionais que atuam em instituições de internação para adolescentes cumprindo medidas socioeducativas, apresentou como impasse, as manobras deles para passarem as noites em claro. Fala-se de insônia, mas na verdade há uma busca deliberada de meios para não dormir. Não querem dormir para não sonhar, têm medo dos próprios sonhos, que são pesadelos. Então, pedem medicação capaz de fazer apagar e nada lembrar no dia seguinte.

Esses jovens sinalizam que quando estão em liberdade, envolvidos com a criminalidade, não sonham, porque “a vida do corre não permite”. A inserção no discurso capitalista por meio da oferta e da resposta desenfreada à demanda de consumo de drogas, precipita esses jovens em uma vida de atuações em série. Porém, quando são capturados pelo sistema de justiça, a própria condenação à medida de internação, lhes impõe uma parada no ritmo turbulento da prática ilícita. Nesse tempo de pausa, sozinhos consigo mesmos, se atém ao trabalho do inconsciente movido pelo real dos delitos, em meio a medos, violência e mortes. Os pesadelos mostram cenas de corpos sendo alvejados, fugas angustiantes, pessoas assassinadas. Para a psicanálise o pesadelo que marca o desprazer, não é diferente da ideia do sonho enquanto a realização do desejo, pois, de acordo com Freud, ambos têm a função de “guarda-noturno”. Diferentemente do sonho que impede a interrupção do sono, o pesadelo coloca um fim no sonho, fazendo o sujeito despertar no ápice da angústia, em um ponto de impossível. Em ambos os casos, o inconsciente opera sem interpretação.

Quem interpreta o sonho é o sonhador

O Laboratório “Entre escolhas e expectativas” realizou Conversações sobre sonhos com jovens universitários. Inicialmente, eles se dispuseram a compartilhar seus sonhos, caracterizando-os: sonhos de angústia, de repetição, de infância, sonhos bons de sonhar e confusos. Concluíram que os sonhos têm efeitos sobre o corpo e refletem como cada um se sente. Em seguida, observaram um ponto de absurdo nos sonhos e se debruçaram sobre esse ponto, um tentando decifrar o incoerente do sonho do outro. Então recorrem ao sentido universal das significações, mas isso incomoda. Concluem que nem tudo pode ser decifrado. Ao se depararem com esse limite do sentido e, mesmo, o sem-sentido, surge o impasse: “Tô dando mais importância para meu sonho, mas ao mesmo tempo não quero saber”. Quando a conversa caminha para decifrar os sonhos de qualquer jeito, os jovens param de levar sonhos, não se lembram deles e esquecem de anotá-los. Quando não se pode mais fazer valer que é o sonhador que interpreta seu sonho, os jovens se fecham: tenho “Medo do meu inconsciente ser descoberto”. A enunciação do sonhador mostra-se necessária, como esclarece Lacan ao afirmar que “o sonho é a interpretação produzida pelo inconsciente, e o sentido incoerente que encena oniricamente é uma roupagem daquilo que se articula como frase”.

O sonho que vai ter lugar na conversação após esse impasse, é o sonho para o futuro.

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