As Conversações na Biblioteca Hans C. Andersen e as danças das cadeiras
Laboratório CRIAR
As conversações ocorrem em uma biblioteca pública, a partir da apresentação feita por uma das laboratoriantes, onde a qual possui uma relação anterior. Nos foi feito o convite para realizarmos as conversações com as crianças de uma escola próxima que frequentam as atividades da Biblioteca. Apresentaremos os recortes de algumas conversações, realizadas com grupos de crianças diferentes, a aposta do laboratório CRIAR foi fazer surgir nelas ditos singulares.
“Quem é ele”?
No primeiro encontro, o curta Alike é nosso disparador, um curta sem falas, somente com imagens e música. Inicialmente, as crianças falam o que viram, de modo descritivo, como uma resposta ao saber pedagógico. No entanto, algo da “solidão” aparece em pequenos relatos: a solidão do pai, do menino e a solidão ao ficarem “só” em casa quando os pais saem para trabalhar.
Ainda com a proposta do curta Alike, nesta conversação, as falas deslizaram metonimicamente, a partir da ambiguidade estrutural do significante, S1 e S2, em que um termo sempre está em relação ao outro. Ou seja, um e outro. Entre mentira e verdade; Entre imaginação e realidade; Entre tristeza e diversão; Entre rotina e feriado; Entre pai e filho; Entre falar e calar; Entre filme mudo e fim do mundo. E, ao final dessa Conversação, surge a interrogação sobre “ilusão de óptica”. O que se passa Entre, S1 e S2, nada mais é que “ilusão de óptica”?
Uma foto de Hans Cristian está na sala, ele dá nome à biblioteca, então uma pergunta, deslocada do contexto da conversação: “quem é ele?” e interrogam se Hans tem família, pois na foto ele está “sozinho”. Um Outro enigmático que atravessa. Podemos ler como a sutileza da produção de um desejo de saber?
Em uma nova conversação propomos como disparador a leitura do livro “Tantos medos e outras coragens”. Mais que uma simples leitura, as crianças editam o texto ao decidirem interromper a leitura feita por uma das laboratoriantes. Ao interromperem, colocam um ponto. Recortam do texto a questão que norteará a conversação: medo e perder. Dizem das mudanças de casa, de cidade, de país e do que aí se perde. Uma criança comenta que mudou de Goiás para São Paulo e um menino boliviano, que recém havia se mudado para o Brasil é indagado: “como foi para você deixar tudo lá?”. Recortamos uma outra fala: “perde tudo”. “Tudo?” – interroga uma laboratoriante; ao que ele contesta: “nem tudo”.
Decidem retomar a leitura. Querem ler eles mesmos a história, com suas vozes, e o livro passa de mão em mão. O que seria esse desejo de ler? Uma vez mais: “quem é ele”? – uma criança interroga, novamente, sobre o quadro do Hans. Esse Outro enigmático que segue causando interesse.
Destacamos esses trechos que relatam os pequenos encontros na Biblioteca feitos de ditos que parecem fugir do saber estabelecido e ir se alojando na singularidade. Podemos dizer que esses são os efeitos das Conversações?
Em outra conversação, a história do “Soldadinho de Chumbo” aparece. Há uma réplica desse soldadinho na Biblioteca e algumas crianças apontaram para a falta de sua perna e uma das crianças pede para sentar em uma cadeira, que se parece com um trono, as outras crianças o observam e perguntam se pode, as laboratoriantes respondem afirmamente e a Conversação segue.
Dança das cadeiras e dos discursos
Apesar dos professores estarem presentes nas Conversações, eles escolhem ficar fora das rodas. “De fora” parece ser o lugar que eles ocupam nas atividades da Biblioteca, apenas acompanham e organizam as crianças para a atividade.
Nossa proposta é que as conversações sejam feitas em roda, sentados no chão. Há cadeiras disponíveis que ficam à margem. Diante disso, um dos nossos questionamentos foi de como poderíamos dispor das cadeiras, posto que nas primeiras Conversações os professores aí sentaram e, então, as cadeiras passaram a simbolizar o outro discurso, o pedagógico, que ficou “de fora”. Cadeiras que representam o dentro e fora. Nesta dança das cadeiras e discursos, como trabalhamos entre dentro e fora? Existe dentro e fora?
O lugar da Biblioteca na Conversação
Em um dos encontros não foi possível as crianças irem até a Biblioteca, a coordenadora propôs que fossemos fazer a Conversação na escola. Desta vez, a partir da leitura da história do “Soldadinho de Chumbo” e a construção de desenhos, a convite das laboratoriantes, a professora também faz parte dessa construção. Mas, numa situação de desentendimento entre as crianças negras, que queriam usar o lápis preto para pintar a pele do soldadinho, a professora intervém recolhendo todos os lápis dessa cor. O efeito dessa intervenção foi imobilizador nas crianças e laboratoriantes presentes, sendo que nenhuma palavra e dito foi possível surgir diante dessa situação.
Por isso, foi pensado que o lugar da Biblioteca de alguma maneira atravessou esses discursos, permitindo que outra coisa pudesse aparecer.
Pensamos em aos poucos trazer os professores para a Conversação, os convidando também à fala, de modo singular. Lugar inédito para eles, isto é, o de poder falar de outro lugar. Algumas participações, por vezes se referem a ordem, a partir de certa posição professoral, do discurso que a eles compete. Assim, surgiram intervenções, mesmo que desde seus lugares, que favoreceram a conversação e não a obstaculizaram, ainda que fora da roda, mas não da Conversação.
Dessa maneira, pensamos no lugar da Biblioteca como um lugar importante, um lugar que favoreceu emergirem outros dizeres, possibilitando um espaço entre discursos, um lugar de anfitrião que possibilitou um trabalho de hífen desses discursos, um lugar aberto para palavra singular surgir?

