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Com quem contar? Sobre a minissérie “Adolescência”

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Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros

A minissérie Adolescência aborda em quatro episódios uma questão que tem preocupado e mesmo angustiado pais, educadores, profissionais psis e da área da saúde e do judiciário. Uma questão interdisciplinar que interessou ao CIEN e que foi trazida para debate no Cine Cien Rio na última terça-feira 29 de abril de 2025.

A série é abordada do ponto de vista da investigação policial, encontrar o culpado e suas razões para cometer o crime, que precisa ser desvendado e punido. Nas entrelinhas do enredo é tocada a questão da culpa em sua dimensão subjetiva, que vai além de uma questão policial. É colocada em cena, com a boa atuação dos atores, a relação da culpa com a angústia e o apagamento da dimensão desejante dos personagens.

Quatro sequências do filme me chamaram atenção pelas sutilezas aí implicadas.

A primeira quando o pai pergunta ao filho se foi ele quem matou a colega e o filho afirma de forma aparentemente segura que não foi ele. Logo em seguida as cenas do crime gravadas em vídeo indicam a suspeita que recai sobre ele. Ao assistirem as cenas, pai e filho choram compulsivamente. O filho repete várias vezes “pai, pai” e o pai vira as costas para o filho em desespero antes de partir para abraça-lo e perguntar “o que você fez? por que você fez isso?”.

A segunda sequência que se sobressai é quando mais uma psicóloga vai fazer a entrevista investigativa em busca das motivações do crime. Entra com um sanduiche e um chocolate quente. Ao recebe-los o adolescente desconfia dos truques que ela está tentando usar para obter sua confissão. As perguntas giram em torno da noção de masculino que habita esse adolescente, abordando sua relação com o pai e aspectos de sua vida sexual. Ele reage as perguntas, mas depois de algumas crises de desespero, deixa transparecer em sua fala frases como “o que fiz… “, tentando inocentar o pai, ao mesmo tempo em que se refere as crises disruptivas paternas, minimizando seus efeitos. Nessa entrevista aparecem as contradições em sua fala. Nova crise e uma demanda de amor à psicóloga para poupá-lo do que ele próprio percebe que já denunciou.

A terceira sequência acontece depois de um ataque do pai ao adolescente que teria pichado seu carro de trabalho com a palavra “tarado”, que ele não consegue apagar. Joga em desespero a tinta para recobri-la. Na volta para casa recebe um telefonema do filho lhe felicitando pelo seu aniversário e fazendo referência ao cartão que tinha enviado para o pai. O cartão traz a marca de seu talento e de seu gosto pelo desenho que talvez tenham passado despercebido e não valorizado pelos familiares. Logo em seguida o adolescente anuncia que vai confessar o crime. Diz ele que falta pouco para o julgamento e ele decidiu confessar. Sua fala é firme, não tem o tom de queixa, nem de padecimento que sua mãe quis trazer ao se referir a comida ruim do presídio. Esse é um momento de virada decisivo, findam os risos encobridores da tragédia, findam as brincadeiras que antecederam a agressão do pai ao adolescente suposto de pichar seu carro. Aparecem os choros desesperados. A mãe adquire outra postura diferente daquela de um riso sem sentido colado em seu rosto.

A quarta sequência vem de forma forte, o diálogo entre pai e mãe no quarto do casal ao lado do quarto do filho, quando enfim se perguntam em que erraram, qual a culpa deles. O pai diz que quis fazer diferente do próprio pai que lhe batia, mas o que resultou disso foi deixa-lo só no seu quarto, onde achava que ele estaria protegido. A mãe se refere à luz acessa que podia ver através da porta fechada do filho até tarde da noite. A luz se apagava e se apagava assim pra ela a função que poderia ter para o filho, seu interesse no que fazia aquela luz acessa. Atrás da luz tinha um adolescente atravessado por várias questões que lhe invadiam sem que ele pudesse abordá-las, compartilhá-las. As questões se fecham ao mesmo tempo que a porta do quarto se fecha e a luz se apaga. A saída do quarto o leva a uma passagem ao ato. Destruir antes de poder interrogar o que estava em jogo no que lhe atormentava e que só tinha como interlocutores os dois colegas, certamente atravessados também pelos mesmos impasses e o anonimato nas redes sociais. As respostas já prontas que encontram nesse espaço bloqueiam o surgimento de perguntas e empurram para os embates sem levar em consideração suas consequências.

Extrair essas quatro sequências da minissérie Adolescência me levou a considerar o sonho de um pai, relatado por Freud no qual aparece seu filho já falecido e lhe diz: “pai não vês que estou queimando”. O sonho aconteceu quando o pai tentava descansar no aposento ao lado do lugar onde seu filho morto estava sendo velado. Ele tinha deixado alguém em seu lugar, que também dormiu e não percebeu que a vela ao cair estava incendiando o cadáver. O clarão provocou o sonho do pai, mas só a frase dita pelo filho no sonho o acordou. A frase do filho toca em um ponto de insuportável que acorda. Não só o insuportável da perda do filho, mas o que da experiência do filho lhe escapou, aquilo que queimou no filho ao longo de sua existência. Um ponto de impossível que faz parte da experiência “do pai enquanto pai – isto é, nenhum ser consciente”, diz Lacan. Com isso ele indica uma função e seus limites, o que permite abrir novos caminhos. Paradoxalmente é o consentimento com esse ponto de impossível que pode sustentar a relação entre um pai e um filho que não se reduz a alternativa punição ou permissividade, que se traduz por um tipo cruel de abandono. O seriado nos provoca a pensar o que pode abrir para um campo novo de relação entre pais e filhos, quando não está mais apoiada na tradição. Não dá mais para fazer como seu pai fez com você com suas chibatadas, diz o pai nessa série. É no a-posteriori da tragédia de um crime hediondo, como diz o policial, que surge para os pais do adolescente uma questão sobre como poderia ter sido diferente. Essa questão interessa ao debate interdisciplinar no CIEN.

Com quem crianças e adolescentes podem contar para não ficarem entregues a si mesmos quando tem que lidar com a estranheza que habita tanto seu corpo como os laços sociais mais diversos na família e fora dela. Quando a alteridade consigo mesmo e com o outro amedronta pode empurrar a passagem ao ato se não houver a chance de uma suspensão que dê lugar a um tempo de elaboração. Esse tempo requer a presença, a intervenção de um outro que consinta com a alteridade.

Onde as crianças e adolescentes podem encontrar, no atual estado de nossa civilização hedonista e consumista um ponto de impossível que lhes permitam desenvolver suas possibilidades de inventar novos caminhos que tragam a marca do que lhe é mais próprio?

Jamie gostava de desenhar, tinha talento para isso, mas tinha que seguir um certo padrão de masculinidade oferecido pelo pai, futebol, box que o levava ao fracasso e ao encontro da decepção paterna. Como podemos estar atentos ao libidinal que queima nos filhos e que pode se transformar em causa de desejo e não só de insatisfação e decepção? Como não fazer do encontro com o que escapa na experiência dos jovens uma razão para o afastamento, o desprezo, a recriminação, mas um interesse vivo em segui-los em seus impasses e suas descobertas. Poder olhar para onde eles estão olhando, para onde eles estão apontando e poder encontrar o que os preocupa, o que os intriga, o que os desanima, o que os motivam. Enfim poder entrar em contato com o que eles buscam sem saber muito como fazer. Do interesse genuíno pode advir formas inéditas de estar ao lado, de seguir sem invadir, sem abandonar.

Os laboratórios do CIEN presentes nas instituições e nos locais, nos quais as crianças circulam e vivem seus impasses, tem muito a nos ensinar sobre essas questões.

 

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