Eu até sonhei com você
Laboratório A criança entre a mulher e a mãe
Primeiro dia de aula, a diretora de uma escola no Rio de Janeiro está no portão para receber as crianças. Ela brinca, como faz todos os dias: “para passar é preciso pagar o pedágio com um abraço!” Na fila de entrada está Bia. Ela sorri e lhe dá um longo abraço.
Ao longo da semana, Bia desce inúmeras vezes ao andar onde fica a sala da diretora. Bebe água, usa o banheiro, embora pudesse fazê-los no andar que fica sua sala de aula. E a cada vez que desce, passa pela diretora e se aproxima para um abraço.
Fim de semana chega e, na segunda-feira seguinte, a diretora não consegue estar no portão para a entrada dos alunos. Algum tempo depois, Bia aparece em sua sala, coloca as mãozinhas na cintura e, em tom sério, a repreende: Eu não te vi hoje! A diretora responde que não foi possível estar na entrada e pergunta sobre seu fim de semana. Bia a surpreende, já dentro de um abraço, quando lhe responde: Eu senti muita saudade, tanta saudade que eu até sonhei com você, tia Paula, sabia?
O que Bia dirige para a diretora quando conta que teve um sonho com ela? A delicadeza do relato deste sonho traz um impasse para a diretora: o que dizer à menina, seria possível intervir?
Este impasse é um disparador para duas conversações do laboratório “A criança entre a mulher e a mãe”. Na primeira estavam as participantes do laboratório e a segunda aconteceu no encontro de março do Cien-Rio. Ambas partem da seguinte questão: que uso se pode fazer de sonhos de crianças numa escola?
A criança e seu sonho
Aos 7 anos, Bia cursa o 2°ano do Ensino Fundamental. Apesar de ser uma aluna nova, ela circula na escola com desenvoltura. Inteligente, educada e muito simpática, é de poucas palavras. Sua irmã de 4 anos, curiosa, falante e sorridente, parece uma pintura, “uma princesa saída do livro Omo-oba das princesas africanas”, descreve sua professora. Pelo menos por ora, é Bia que expõe algo de seu sintoma na escola.
Roy (2023) sublinha dois caminhos para o trabalho do sonho: “o do desejo, por meio do qual a realidade se constrói; e aquele que cava o buraco por onde toda realidade escapa em direção a um impossível de representar”. Entre a tentativa de realizar o desejo dos pais e o temor de apresentar algo que se contraponha a seus ideais, está a criança e sua angústia.
A primeira conversação foi realizada com a diretora e as outras participantes do laboratório e girou em torno da produção do sonho que foi dirigido para ela. Ao final, concluem que não se trata de fazer uma “psicoterapia escolar”, mas de dar lugar à palavra da criança com os significantes que ela traz e articula na construção de seu saber sobre o que se passa com ela. Isso leva ao desdobramento quanto ao contexto dos pais, tema da segunda conversação.
O delírio familiar
Durante a segunda conversação, a diretora lembra de um dado importante: após o aceite da matrícula de Bia e da irmã, soube que era a terceira escola, em três anos, em que as duas meninas estavam estudando. Os pais eram “inadimplentes profissionais”, o que confirmaram ao final do ano letivo, quando, mais uma vez, mudaram as filhas de escola, deixando para trás o débito de todas as mensalidades escolares daquele ano. Somente as matrículas foram pagas.
Assim, aos 7 anos, Bia cursa o 2°ano do Ensino Fundamental I e já fez e desfez laços pelas escolas em que estudou, em tão pouco tempo.
“De dentro, eu escutava, via e acolhia. E o fato recortado era a carência afetiva de uma menina sensível e inteligente que a cada ano precisava romper todos os laços construídos, como se estivesse deixando para trás um lápis e um caderno.” – traz a diretora, apontando os limites da atuação dos profissionais nas instituições.
Algumas participantes desta conversação com o Cien-Rio se surpreendem com a posição “perversa” dos pais (legitimada pelo Estado) que justamente impede que as filhas façam laços importantes para a vida escolar e para a formação enquanto sujeitos.
Na escola, “como proteger as crianças do delírio familiar?” Foi sugerida uma interlocução com o conselho tutelar, afim de problematizar essa questão e certos “equívocos” do Estatuto da Criança e do Adolescente. As resoluções normativas e super protetoras sobre a infância, na perspectiva do sujeito de direito, muitas vezes desconsideram a criança como um sujeito que possui o seu próprio saber. E ao fazê-lo, produzem um discurso sem furos, que a silencia e aliena.
Uma segunda questão surge na conversação: o uso tóxico dos celulares e a reação das crianças e adolescentes diante da proibição nas escolas. Acolhê-los na escola, educá-los, exige hoje encontrar um uso sob medida para os gadgets que a civilização oferece para eles.
Seguir Lacan com a ideia de que “todo mundo é louco” é dar lugar a cada um – seja a criança com seu sonho, ou a diretora – com sua invenção. É tomar a “carência afetiva” como um dizer e não uma classificação.
“É preciso inventar, a cada vez, como encontrar o acesso do sujeito a que nos dirigimos. Isso implica uma distância das classificações, o que implica uma despatologização”. (Laurent, 2023, p.23)
Laurent, É. “A análise de criança e a paixão familiar”. Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum, 2011.
Laurent, É. “Entrevista com Érica Laurent”, por Silvia Tendlarz. Conversa com o inconsciente das crianças e seus objetos. Ana Martha Wilson Maia (ed.). Goiânia: Kelps. 2023.

