O adolescente especialista de si e o adolescente pesquisador: uma aposta na conversação
Laboratório Janela da Escuta
Em 2023, a equipe do Laboratório Janela da Escuta foi convidada pelo Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes (CMDCA), para realizar um diagnóstico sobre as adolescências em Belo Horizonte.
O Laboratório, cujo trabalho tem como cenário o hospital universitário, com seus serviços e ambulatórios de especialistas, tem como premissa o ‘adolescente especialista de si’ subvertendo o lugar do saber. Uma outra aposta do laboratório é a ‘tessitura de uma rede sob medida’, que subverte a rigidez dos protocolos do hospital universitário e das políticas públicas.
Nas investigações, convidamos o adolescente para ser um pesquisador e coautor das publicações. Neste sentido, há a aposta que esse sujeito pesquisador se produza a partir das conversações. A equipe do laboratório já vinha realizando, desde 2022, conversações com os adolescentes, para investigar as suas tessituras de rede, com seus enlaces e rupturas, antes de chegar ao Janela da Escuta. Agregamos a esta pesquisa, o diagnóstico da cidade pelos adolescentes, subvertendo a demanda do CMDCA. Investigamos as leituras que os jovens fazem da cidade, e que sonhos eles têm para si mesmo, para os coletivos de jovens e para a cidade.
A metodologia das pesquisas citadas, inspiradas nas conversações de orientação psicanalítica, se alinha às premissas éticas do laboratório. A conversação inter-disciplinar foi também a metodologia utilizada pela equipe da pesquisa, para discutir os achados da mesma.
Em novembro de 2023, o Laboratório Janela da Escuta foi o responsável por animar a noite do CIEN – Minas Gerais com o título “Onde estão os adolescentes nas Políticas Públicas?”. Neste encontro, destacaram-se na conversação os significantes conselho e resistência. O significante conselho se desdobrou em duas vertentes: na vertente do dito do adulto, sobre o que o adolescente deve ou não fazer, ou seja, de um saber sobre o adolescente e não um saber advindo do próprio adolescente; e na vertente do Conselho Tutelar (CT), órgão de defesa, garantia de direitos, elaboração e proposições das políticas públicas. O CT via de regra, também acredita ter um saber sobre os adolescentes e suas famílias, e atuam alinhados com as leis, sem uma dialetização possível. O conselho (nas duas vertentes) aparece como um discurso que aprisiona o jovem em um saber exterior a ele, predicativo, ao contrário da conversação, cuja aposta é fazer a palavra de cada um circular, produzindo um novo saber.
O significante resistência apareceu na resposta dos adolescentes à orientação universalizante das políticas públicas. Resistência ao não se submeterem à lógica do para todos, demandando políticas públicas com mais abertura às construções singulares.
Em uma dessas conversações, uma jovem negra, diagnosticada com retardo mental, moradora de uma ocupação urbana, descreve um plano de governo para o seu município com propostas sobre diferentes políticas públicas. Isso acontece a partir da intervenção na conversação: “O que você faria se fosse prefeita da sua cidade?” Sobre a escola, aponta como uma escola poderia ser e completa: “é… nossa, eu faria uma escola grandona, maior que a minha para aprender várias línguas, como coreano.” Além disso, propõem um novo sistema de avaliação sem provas: “Poderia fazer uma brincadeira difícil.” E completa dizendo sobre seu sonho de viajar para a Coréia, sugerindo a viabilização das viagens pelas escolas, com um acompanhante.
Esta pergunta – o que você faria se fosse a prefeita/prefeito? provocou uma ressonância nos corpos e nas falas, resultando em propostas inovadoras e potentes.
Podemos pensar em um giro discursivo, em uma mudança do ponto de onde se é visto. Lacadée (2011) aponta que:
O adolescente deve inventar sua própria abertura significante em direção à sociedade, a partir do ponto de onde ele não se vê mais como a criança que foi, aprisionado no desejo do Outro, ou seja, de onde pode perceber, de maneira contingente, certa visão de si mesmo e do mundo. (p. 32)
Em alguns casos o diagnóstico, como um nome dado pelo Outro, produz o apagamento e o silenciamento dos adolescentes. É preciso que o analista no contexto inter-disciplinar, possa intervir de modo com que o caso apareça apesar do que determina o seu diagnóstico. O giro discursivo provocado a partir da intervenção nas conversações, habilita o adolescente a falar e a partir daí ele pode se ler de outro modo, sem submeter-se à nomeação que vem do Outro.
Aprendemos muito com os adolescentes nessas pesquisas, e vimos, uma vez mais, como a presença de pelo menos um analista nas conversações inter-disciplinares, pode sustentar o hífen, o intervalo, permitindo a elaboração de um novo saber.

