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O autismo como um sonho que não foi sonhado

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Laboratório Protocolo Aberto

O diálogo entre as disciplinas, proposto pelo CIEN, afrouxou discursos e possibilitou que o nome deste laboratório se inscrevesse já provocado por uma inquietude de alguns participantes. Eles pareciam advertidos de que algo de um saber antecipado sobre o que é uma criança, não haveria de funcionar com os sujeitos autistas que chegavam em algumas Instituições.

Eis que então, o Laboratório Protocolo Aberto é convocado a fazer a palavra circular em um espaço tomado pelo discurso da ciência. Uma Instituição de tratamento para autistas que não contava com equívocos mirava nos métodos e abordagens corretivas, dando a eles esconderijo através dos significantes sociais das “eficácias cientificas”. Em um cenário que romantizava a batalha do autismo, a angústia dos pais fez um barulho alto e balançou as estruturas firmes da narrativa médica. Frente a recusa das crianças em ceder a um Outro massificador e educador, a exasperação das famílias tomava o lugar, abrindo intervalo para as conversações. Foi quando os furos então, começaram a aparecer.

Em mais de quatro anos de Laboratório Protocolo Aberto, muitas conversações aconteceram neste âmbito institucional com pais, mães, cuidadores e pessoas que convivem com o autismo. Mas foi em um dos encontros/reunião entre os participantes do Laboratório, onde nos apresentávamos ao tema da IX Conversação do CIEN para o Encontro das Redes do Campo Freudiano – “sonhos e fantasmas na criança” – que na suspensão de alguns significantes pudemos, a posteriori, localizar que aconteceu ali, uma conversação que nos dividiu com duas questões. A primeira delas abriu causa para a verdadeira maquinaria estratégica de clínicas e planos de saúde que contribuem de forma mercadológica na compra e venda de produtos e tratamentos para autistas. Este uso inédito de uma deficiência para sustentar a lógica capitalista parece dirigir sem freio o uso da infância como objeto de gozo do capitalismo/social, e também nos empurra para a segunda questão deste texto: a queda das famílias nas armadilhas dos tratamentos normativos como uma forçagem de encaixe da criança no sonho ideal dos pais.

Vamos iniciar pela segunda questão, pensando a criança no lugar de um sujeito que nasce de uma narrativa. Vezes uma narrativa desejosa, vezes uma narrativa de negação, ora para preencher o vazio dos pais, outrora é um modo já mais sabido de lidar com este vazio. Muitas são as possibilidades de sonhar um filho, apoiadas em alguns saberes já postos na cultura e no laço social sobre os ideais do que é uma criança e a infância. Porém, o funcionamento autístico não parece se encaixar com o que é esperado e até já problematizado sobre os impactos da chegada de uma criança no seio familiar. A recusa do olhar, da voz, a precariedade na relação com o outro e os rompimentos que levam a autodestruição não são, nem de longe, o que se espera de uma criança. Então, o que fazer com essa criança que não foi sonhada?

Podemos pensar que é nessa brecha, nesse não saber avassalador que se apoia a indústria do autismo?

Em outros efeitos de conversação que este laboratório já pôde decantar, alcançamos a importância do acolhimento dos pais nos tratamentos dos autismos, considerando que a convivência diária com sujeitos imersos no real aparece como fonte de desespero. Pais que acionavam serviços de emergências, até contratar quarenta horas semanais de terapias para seus filhos, nos denunciam a fragilidade de um não-saber-fazer com a desencontro daquilo que não foi sonhado. O discurso universitário com suas especializações, protocolos e manuais, assim como o discurso da ciência, com seus resultados inconclusivos, porém medicamentosos, tratam de oferecer alguns caminhos de apaziguamento comportamental, suficientes para que famílias inteiras sejam capturadas por um Outro que sabe dizer algo sobre sua criança.

Contudo, pode ser neste instante, onde a falta do dizer e de uma narrativa sobre o filho prevalece, que os tratamentos dos autismos pensados pela psicanálise apostam em resgatar a entrada na linguagem. Pois, sobretudo, incluem os pais de modo a devolve-los, ou fazer causar, um saber sobre a criança – assim, seria este, um furo para sonhar o próprio filho?

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