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Therians: Identidade, corpo e pertencimento nas redes sociais

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Laboratório Ser, parecer, sonhar nas redes sociais

O laboratório “Ser, parecer, sonhar nas redes sociais” promoveu encontros com adolescentes de 12 a 16 anos, mobilizados pela inquietação diante do fenômeno dos Therians – uma expressão identitária emergente entre jovens, especialmente nas plataformas digitais. A experiência culminou em uma apresentação na noite do CIEN Minas, em que se discutiu, de modo transversal e interdisciplinar, a centralidade do significante “lugar” como eixo de pertencimento, legitimação e existência simbólica.Segundo a definição disponível na Wikipédia, “therians são indivíduos que acreditam ou sentem ser animais não-humanos de forma espiritual, psicológica ou neurobiológica”, articulando essa vivência por meio da noção de “disforia de espécie”. Nos encontros, os adolescentes compartilharam percepções próprias: definem-se como sujeitos que “não se reconhecem como humanos” e afirmam sentir “uma força do bicho dentro de mim que quer se manifestar”.

Ao longo das conversações, refletiram sobre como constroem e performam suas identidades nas redes. Tais espaços se tornam verdadeiros lócus de reconhecimento e comunidade, em que se compartilham narrativas, práticas e afetos. Sites, perfis, blogs e páginas funcionam como dispositivos pedagógicos e normativos, nos quais se define, orienta e valida o que é ser therian. No entanto, nesses ambientes, a expressão da identidade therian também encontra resistência, como relatou um jovem: “tem os haters, mas só de saber que tem gente como eu já dá conforto”. As manifestações relatadas englobam desde sensações corporais sutis até performances deliberadas, como o quadrobismo – imitação dos movimentos e gestualidades de determinada espécie animal com a qual se identificam. No TikTok, esses adolescentes compartilham vídeos em que utilizam máscaras, caudas e luvas, compondo uma autoimagem que é, ao mesmo tempo, íntima e comunitária. Um deles afirmou: “me sinto confuso porque não consigo medir o corpo”, sinalizando um desalinho entre percepção corporal e espaço físico. Outra jovem aproximou sua experiência à “disforia de gênero”, sugerindo zonas de sobreposição entre diferentes modalidades de deslocamento identitário.

Os momentos mais intensos dessa experiência relatados são chamados de shifts, ocasiões em que a sensação de animalidade se impõe ao ponto de reorganizar o corpo e sua ação: “frequentemente me pego caminhando nas pontas dos pés, mesmo na escola”, ou ainda, “sinto a puxada do corpo e vontade de coçar as orelhas”. Em outro momento, ouve-se: “sim, e me dá vontade de rosnar dependendo”. Esses relatos apontam para uma vivência subjetiva que desafia binarismos estabelecidos entre o humano e o não humano.

A psicanálise é aqui convocada a reconsiderar os modos de subjetivação que se operam a partir das redes. As falas revelam uma pulsão de pertencimento e de reconhecimento: “me sinto menos louco”; “entendi que tem mais gente como eu”. Sigmund Freud, ao tratar das formações da identidade em Psicologia das massas, e Jacques Lacan, ao articular a constituição do sujeito via linguagem, oferecem importantes referenciais. Jean-Claude Milner e Jacques-Alain Miller atualizam esse debate, indicando que, na ausência de um significante-mestre, os sujeitos passam a investir em séries de significantes múltiplos para sustentar sua existência simbólica. “Eu sou o que eu digo” passa a ser uma nova fórmula de consistência subjetiva. No horizonte da adolescência, essa lógica se acentua. Philippe Lacadée observa que se trata de um tempo lógico, próprio de cada sujeito, marcado por uma “crise da linguagem” e por uma reformulação da imagem corporal frente ao desejo do Outro. A entrada em cena de objetos como o olhar e a voz, assim como o confronto com o corpo do Outro, torna essa travessia arriscada e única.

Quando abordados sobre os sonhos, os adolescentes distinguiram dois registros. O primeiro, o sonho como desejo: “que meu pai me entenda”; “uma escola para therians”. O segundo, o sonho onírico, com forte carga simbólica: ““quando vi, toda a alcateia na minha frente me olhando e eu era um lobo ali na frente deles… todos eles me olhavam e eu me juntei ao grupo, subimos juntos”; “lembro do sonho quando comecei a entender meu therien, senti sede e no sonho fui beber água na vasilha do meu cachorro”. Tais sonhos são narrados como experiências reveladoras de conexão com sua theriotype, consolidando a dimensão sensorial e simbólica da identidade não humana.

A busca por um “lugar” – palavra que atravessa toda a conversação – reverberou nas conversações. Uma jovem therian-loba narra, em seu blog, uma trajetória marcada por dor e patologização, transformada pelo encontro com a comunidade online: “entendi que existiam outras pessoas como eu. Me libertei.” Essa libertação, entretanto, vem acompanhada de tensões próprias do laço social contemporâneo. Em uma web 4.0 onde tudo pode ser nomeado, performado e categorizado por hashtags, há o risco de que identidades se cristalizam em posições rígidas, como humano/não humano. A discussão na noite do CIEN lançou questões cruciais: pode a escola se adaptar a essas novas formas de nomeação subjetiva? A performatividade therian desafia a instituição escolar, ao mesmo tempo em que as redes funcionam como espaços de acolhimento simbólico. As falas apontam para uma relação íntima entre corpo e performance: “quando uso minha máscara e minha cauda, me sinto mais eu”; “eu sabia que aquele corpo não era o meu desde os sete aninhos”; “consigo me encontrar quando faço quadrobicis de gato”.

Frente a esses deslocamentos, o que cabe à psicanálise e à educação? Como escutar e acolher singularidades que escapam ao modelo identitário tradicional, e que se articulam por meio de linguagens midiáticas, gestos animalescos e experiências algorítmicas? A web 4.0 permite ser tudo, desde que se declare, se afirme e se sustente numa comunidade regulada por códigos próprios – muitas vezes indexados por hashtags e validados por algoritmos. A conversação se encerrou com uma provocação contundente: não estaríamos, todos, em nossos avatares, fabricando “lugares” blindados por estratégias contra os haters? Que efeitos tais experiências têm na formação dos laços e do sujeito? Onde se alojam os riscos e as potências desse novo modo de estar no mundo?

 

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