Uma conversação sobre “Adolescência”
Mirta Fernandes e Sandra Landim
O Cine CIEN tem como proposta utilizar o cinema como dispositivo para a conversação interdisciplinar e é nessa perspectiva que escolhemos abordar a minissérie Adolescência. Escolhemos o quarto episódio como disparador, não sem deixar de abordar os demais episódios.
A conversação se iniciou com os convidados: Daniel Barros, psicólogo do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (NAPNE) do campus Humaitá II – Colégio Pedro II, Daniele Menezes, psicóloga e psicanalista atuante no DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) e Isabel do Rêgo Barros Duarte, psicanalista, membro da EBP/AMP, trazendo suas impressões.
Um episódio traumático conduz os episódios seguintes que se organizam como tentativas de construir diferentes verdades. Uma “verdade policial”, a “verdade jurídica” e a “verdade familiar”. Falta a verdade de Jamie. Assim aponta Daniel Barros.
Diferentes versões e pontos de vista sobre um mesmo fato, diferentes possibilidades de entender, de explicar e de tentar cernir um real traumático inquestionável.
Embora ambientada na Inglaterra, a série nos provoca a pensar a realidade brasileira. Aqui, Daniele Menezes nos traz que a maioria dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas está envolvida com tráfico, furtos e roubos. Os homicídios são raros nessa faixa etária, e no Brasil, temos o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) como marco legal para refletir politicamente as situações de crime e violência.
Neste capítulo, a versão dos pais, mais do que a do próprio personagem evidencia uma idealização dos pais junto com a pergunta: o que fizemos de errado?
A série não mostra o julgamento. Como olhar para essa história para além do julgamento? O que se pode escutar e dizer? Como escutar sem perseguir uma resposta? O ato do filho não cabe no universo dos pais. Como escutar esse estranhamento que carrega um horror?
Isabel traz suas impressões: não se acha a verdade. As verdades que são abordadas não dão conta. A série vai atravessando um burburinho. Momentos em que a enunciação poderia aparecer são cortados. Ausência de verdades que definam uma causa única que justificasse o fato.
A série também toca na relação dos adolescentes com as redes sociais, mas não as coloca como centro da explicação. As redes não oferecem respostas. Importante ressaltar que é na saída da infância, do estranhamento do corpo, de um novo desalojamento do gozo onde os recursos da infância já não dão mais conta. É um corpo novo que traz novos gritos e as palavras infantis já não dão conta de nomear. É comum, por exemplo, adolescentes inventarem uma linguagem própria — como os emojis — que justamente escapa ao entendimento dos adultos. Lacadée em seu livro “O despertar e o exílio”, já diz que a adolescência é a mais delicada das transições.
Emojis, espaços atualmente virtuais secretos, invenção de uma língua cifrada da adolescência é comum nesse período. A língua dos adolescentes é feita para os adultos não conhecerem. Hoje a diferença é a massificação e alcance dessa língua. Isabel ressalta que em outros momentos comparecia algum vetor vertical entre as gerações. O vai e vem entre as duas línguas parecia existir. Hoje ao olhar para cima as autoridades parecem frágeis. Não há gente grande diz Lacan.
A cena do carro onde os pais falam na presença da filha de como se conheceram, traz um relance de um diálogo de gente grande ao exibir o ridículo do encontro entre os dois, do embaraço que viveram com o encontro sexual e diante dos pares. Isso cria uma certa distância temporal entre os adolescentes que foram e dos adultos que são hoje. “Isso passa”.
Outro ponto bastante comentado também aponta para a questão do olhar. O pai não consegue olhar para o filho na cena do futebol. Essa mesma cena é narrada pelo filho e se repete quando o pai vê a filmagem do crime e quando ouve que o filho vai se declarar culpado.
Daniel aponta aí o luto dos pais e do menino. Como cada um fala desse luto para o outro e desse real insuportável que o pai não consegue olhar. A frustração do menino que sabe que não corresponde ao desejo do pai. Pacto de silêncio entre pai e filho. Pacto pelo recalque. “você diz que não fez e eu digo que acredito”, mas os dois sabem. Pacto perante o outro. A fala no aniversário do pai liberta o pai e ele do pacto. Você não precisa mais mentir sobre isso. É um alívio para o menino e para o pai.
Daniel traz de sua experiência na instituição de ensino o embaraço entre pais e filhos, na escola, entre os pares, o lugar do professor na instituição e qual a relação diferenciada daquela dos pais que o professor pode ter com os adolescentes.
Circulando a palavra para o zoom, surge a questão do insulto. Algo que toca no mais íntimo do ser que o faz passar ao ato.
Na plateia, o cuidado de não cair numa explicação, criar relação causa e efeito: ele nunca disse que matou. “Eu vou dizer que eu sou culpado”. Não é incomum encontrar isso em crianças e adolescentes. A ideia de que o fez não é errado.
Os diretores queriam abordar com a série, a misoginia. Uma preocupação em não tentar entender, mas provocar essa conversa sobre o que estaria levando meninos a matarem meninas. Qual o discurso que está circulando muito cedo para esses jovens, misoginia com violência.
Misoginia aparece com a psicóloga, e ela procurava compreender se ele tinha ou não consciência do que havia feito. Muitas controvérsias em relação à conduta da psicóloga, e da função do seu trabalho como interessada em recolher pontos para dar argumentos ao juiz.
Essa questão da misoginia vem sendo debatida nas mídias. Casos agora aparecendo de violência contra meninas, o que traz preocupação com a internet e o lugar dos pais.
Citando Ansermet – exílio das respostas que os pais deram às perguntas fundamentais: de onde eu vim? Para onde eu vou? Sou homem ou sou mulher? Questões que permanecem sem resposta, e na atualidade sem interlocutores.
A singularidade é algo que não tem sentido. “A gente fez ele… a gente fez ela”. Como a singularidade extrapola o que se pode dar, construir, desejar para o outro.
A fala da irmã: “O Jamie é nosso” parece apontar a possibilidade de incluir o estranho. O olhar do pai para o filho é possível, apontando para um futuro deste menino.
Neste momento de muita passagem ao ato, a série pegou todos em seus pontos obscuros.
Isabel lembra que Lacadée fala no “ponto de onde”, ponto que possa servir para um adolescente se apoiar, podendo ser reconhecido como sujeito, para dar conta dessa nova língua que está construindo. Esse ponto de onde pode ser qualquer um: professor, tio, adulto em algum lugar que possa servir de apoio. Ponto de onde o adolescente possa se apoiar para construir essa tarefa.
Ressaltamos o papel do Cien – pensar e se debruçar sobre essas questões, a patologização da infância e da adolescência e os desafios do profissional de saúde nas instituições. Aqui, a delicada contribuição da psicanálise, do ponto de vista da singularidade, um discurso, espaço que suporte o consentimento de uma distância necessária entre o sujeito e ele mesmo.

