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Uma experiência interdisciplinar: fazer ex-sistir o inconsciente no espaço escolar

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Mirta Fernandes – Cien RJ

Fazer operar a dinâmica inconsciente num espaço multidisciplinar é um desafio constante que vem sendo sustentado pela presença e pelo desejo do analista, e vem sendo autorizado pelo desejo e transferência da direção da escola com a psicanálise.

Minha participação no CIEN-Rio, me permitiu solidificar a forma que imprimi a essa prática que passa a ser orientada pelo dispositivo das conversações, dos textos teóricos e da troca entre os pares psicanalistas, diferenciando a presença do psicanalista no espaço escolar de uma prática psicopedagógica.

Identificar a angústia que fazia parte do cotidiano dos profissionais envolvidos, localizar os pontos de angústia e os impasses de cada situação apresentada, trabalhar com as próprias falas e a análise das pessoas envolvidas, quase como um processo de associação livre, com intervenções de pontuações, interrogações, recolher de cada caso um saber que ali já existia, remetendo à fala para aqueles que a endereçavam, e procurar me deslocar do lugar de mestria – foram esses passos que orientaram minha prática.

Apostar nos vínculos e nas relações entre os pares e no saber que cada um traz de sua experiencia, creio que esse tenha sido um aspecto determinante para o estabelecimento de uma transferência de trabalho com o discurso da psicanálise de orientação lacaniana em um espaço interdisciplinar.

O dispositivo da conversação possibilita esse manejo e permite a construção de elaborações singulares.

Propõe-se então um trabalho de escuta e reflexão com toda a equipe profissional, incluindo o pessoal administrativo e de apoio, baseado em reuniões regulares, de temática livre, procurando acompanhar os impasses cotidianos, sem interferir ativamente na rotina das atividades.  Uma função peculiar, e êxtima, dentro e fora, um lugar privilegiado, com acesso ao núcleo diretor da escola, às coordenadoras e a comunidade escolar.

Assolados pela febre dos diagnósticos que vêm se colocando nos universos familiar e social, reduzindo as crianças a um saber prévio sobre cada sujeito, a partir de uma nomeação, um código, um rótulo.  propõe-se um deslocamento, uma suspensão do lugar de saber. Ler e escutar as atitudes das crianças como formas de expressar sentimentos, emoções, pensamentos e dificuldades.

Possibilitar à criança encontrar, no primeiro espaço social que habita, uma construção de novos laços e relações que acolham sua singularidade, suas diferenças individuais, tendo como horizonte e ideal um convívio respeitoso, mesmo com muitas dificuldades, pode parecer estranho, quase impossível. Como incluir nesse projeto uma ética do desejo, da política da psicanálise e não uma ética moral? Um equilibrismo constante e desafiador foi manter uma posição sustentada na ética da psicanálise, ética do desejo, diferente de um lugar de supervisão, aconselhamento que constantemente era solicitado.

Uma criança precisa de uma comunidade para ser educada. A família de origem é a primeira referência para a criança. E a escola é a primeira referência social, comunitária, o primeiro lugar no qual ela vai se encontrar sozinha, sem a presença dos pais, e entrar em contato com outras pessoas diferentes do seu núcleo familiar. O trabalho do pessoal de apoio, é um trabalho de base, fundamental na estrutura escolar. O pessoal do apoio tem um trabalho próximo da maternagem, dos cuidados pessoais básicos das crianças e do ambiente escolar.

Um trabalho coletivo é ainda mais desafiador e o que se transmite nesse processo escapa a qualquer intenção ou regra. Transmitimos nosso desejo e nossos medos atravessados por nossas angústias diante do que não sabemos. Não sabemos por que é impossível de saber a priori. Precisamos acolher nossas singularidades e compor com nossos semelhantes um mosaico que permita a cada um expressar simbolicamente as soluções possíveis para os percalços cotidianos.

Fazer ex-sistir o inconsciente transita por uma linha tênue, ao mesmo tempo, muito nítida: tênue porque, na solidão desta prática, muitas vezes, as intervenções não encontravam eco. Por outro lado, a cada vez que se sentiam mais seguros e confiantes em seu fazer cotidiano, uma laçada se enodava nessa rede e um tecido podia se construir.

Observo como efeito dessa presença falas que recolho aqui e ali sobre “aprender a ouvir, não precisar ter respostas prontas, perguntar sempre”. Enfim, as demandas de saber deram lugar a interrogações, a reflexões e a um trabalho entre vários. Solidifica-se uma rede de vínculos interdisciplinares que podem acolher o desafio dessa prática impossível, segundo Freud, que é educar.

Uma vinheta prática. Surge na reunião de coordenação uma questão, um impasse, que vinha ocorrendo no trabalho. Falta de compromisso de vários professores com as tarefas pedagógicas. Desde postura em sala de aula com alunos, ao uso de celular por parte do professor, faltas, descompromisso com as atividades coletivas, reuniões, e outras atividades de integração. Alguns professores já haviam sido contactados particularmente, mas havia por parte da coordenação uma dificuldade de abordar a questão que não fosse apenas como uma cobrança formal, uma reclamação, mas que houvesse, de fato, uma mudança de atitude por parte dos professores.

Para ilustrar o que se passava, uma das coordenadoras traz uma foto que tirou em um dos pátios internos, onde se via dois talheres jogados, sujos, no chão, perto de um ralo. No primeiro momento, o fato é atribuído a um aluno, uma criança, ao que a coordenadora retruca dizendo que o local não é um local onde os alunos comem ou circulam com comida etc. Certamente foi um adulto, um professor? A analista presente na reunião sugere que a foto seja levada para a reunião com os professores, colocada na tela, como mais um participante da reunião. Quando começam a se perguntar o que era a foto, onde era, se era uma obra de arte, enfim, as mais diversas interpretações, Revela-se a cena da foto, a questão que era um impasse, relativa ao comportamento inadequado de diversos professores, aparece retratada nessa foto e, então, os participantes passam a falar de suas dificuldades em sala de aula, com os alunos, com a dinâmica pedagógica, falam da formação pessoal, de receios, inexperiências, e passam a propor formas de trabalhar em conjunto. Começam a se questionar sobre como poderiam se ajudar mutuamente, fazer parcerias etc.

Provocar as falas pela foto, uma imagem não muito clara ou definida, possibilitou que cada um pudesse trazer suas particularidades e enlaçar novos vínculos e soluções.

 

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